Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Opinião
Yo non creo en brujas

Rodrigo Pellegrino de Azevedo
Advogado

Publicado em: 07/12/2021 03:00 Atualizado em: 06/12/2021 21:04

Fui criado num ambiente católico. Minha mãe semeou, no meu imaginário e alma, o sentimento da fé. Até início da adolescência, a vida guardava um certo ar místico nas suas confirmações, apresentadas como equação para quase tudo, na vida, e esse mistério me bastava. Entretanto, com o tempo, uma outra atração pela explicação científica para os fenômenos, trouxeram-me a dúvida para determinadas certezas que, absolutamente, não mais caberia à religião responder.

Com o Grande Laboratório de Química Experimental – jogo de sucesso da década de 80 - foi dado o passo inicial para meu deslumbramento com o explicável. Quase optei por estudar física, e, acho que não o fiz, por não saber o que um físico faria para sobreviver (?). Não me arrependo, muito embora, advogar no Brasil se tornou uma profissão de fé. Contudo, a física continuou me acompanhando, certo modo, como um espaço unicamente meu, a me despertar a dúvida sempre, mesmo quando as coisas pareciam óbvias e, principalmente, quando os argumentos se apresentavam fáceis.

Com o tempo aprendi que não caberia a mim aplicar a “verificabilidade” como caminho para a verdade, mas a “falseabilidade”, de Karl Popper, para quem “Um dos ingredientes mais importantes da civilização ocidental é o que poderia chamar de ‘tradição racionalista’, que herdamos dos gregos: a tradição do livre debate – não a discussão por si mesma, mas na busca da verdade. A ciência e a filosofia helênicas foram produtos dessa tradição, do esforço para compreender o mundo em que vivemos; e a tradição estabelecida por Galileu correspondeu ao seu renascimento. Dentro dessa tradição racionalista, a ciência é estimada, reconhecidamente, pelas suas realizações práticas, mais ainda, porém, pelo conteúdo informativo e a capacidade de livrar nossas mentes de velhas crenças e preconceitos, velhas certezas, oferecendo-nos em seu lugar novas conjecturas e hipóteses ousadas. A ciência é valorizada pela influência liberalizadora que exerce – uma das forças mais poderosas que contribuiu para a liberdade humana.”, sendo o que me permitiu abraçar as ideias sem amá-las tanto, para sempre, e esse desamor, foi o que também me possibilitou reconhecer o limite para todas as explicações científicas.

Outro importante cientista que tive oportunidade de buscar conhecimento foi Kurt Gödel, matemático austro-húngaro, pouco conhecido para maioria, mas consolidado como um dos mais importantes lógicos de nossa história, juntamente com Aristóteles, Alfred Tarski e Gottlob Frege, que no ano de 1931, divulgou o Teorema da Incompletude - Über formal unentscheidbare Sätze der Principia Mathematica und verwandter Systeme – no qual demonstrou que “qualquer sistema matemático axiomático, suficiente para incluir a aritmética dos números naturais, necessariamente: não pode ser simultaneamente completo e consistente. (Teorema da Incompletude); e se o sistema é consistente, sua consistência não pode ser provada internamente ao sistema.”; com isso, Gödel, simplesmente, demonstrou que existem equações não resolvíveis e qua a lógica não seria a única capaz de responder e explicar toda a realidade. Aristóteles teria aplicado alguma hierarquia de valor aos discursos “poético, retórico, dialético e lógico”, meu dileto e eterno professor, João Maurício Adeodato?

A Física Quântica aponta isso, na medida em que diversos de seus fenômenos não são explicáveis pelo conhecimento humano atual e pelas leis físicas existentes. Com isso quero dizer que a ciência é algo em evolução e que a fé, não necessariamente, se tensiona com ela, mas dialoga, em outro campo que não o da razão cega, mas o da razão que nos impulsiona para a iluminação do saber ainda não visto por nossas poucas e parcas capacidades, o saber desapegado das provas, aquele que nos ilumina para o incerto.

De forma prática, o que tenho a dizer, é que todos os processos físicos e elementos químicos fizeram parte desse meu mundo material, e como ser humano, em toda minha complexidade, não deixei de buscar sempre as respostas. Como testemunho, alguns mais próximos sabem, tive experiências não explicadas ou explicáveis pela razão. Continuarei fazendo minhas orações, todos os dias, recebendo bênçãos, lendo sobre quarks e fantasmas quânticos, podendo dizer aos militantes ateus que “...yo non creo en brujas, pero que las hay, las hay...”.

Morre Olavo de Carvalho, considerado guru do bolsonarismo
Manhã na Clube: entrevistas com André de Paula (PSD), Eduardo Cavalcanti e Epitacio Rolim
OMS: é possível encerrar fase aguda da pandemia este ano
Manhã na Clube: entrevistas com Carlos Veras (PT), Frederico Menezes e Marlon Malassa
Grupo Diario de Pernambuco