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Opinião
Freyre, Fraile, Frade

Mario Helio
Escritor e jornalista, diretor da Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte da Fundação Joaquim Nabuco

Publicado em: 20/10/2021 03:00 Atualizado em: 19/10/2021 05:43

No dia 22 deste outubro, Gilberto Freyre é novamente notícia na Espanha. Tese de doutorado. O espanhol Pablo González vai colocar à prova diante de uma banca formada por espanhóis e brasileiros sua intepretação sobre o autor de Casa-Grande & Senzala.

O seu tema é o iberismo e hispanismo, constantes, permanentes em Freyre, desde sua juventude até o último suspiro. Pensando-se que esse sentido de identidade e pertencimento persistissem não só nesta “vida de aquém-túmulo”, Freyre estaria agora aplaudindo Pablo.

Freyre dava tanta importância a essa letra ‘Y’ no seu sobrenome que revoltava-se, protestava, inclusive, por escrito quando algum ousado desatento ignorava esse pormenor e escrevia Freire. Freyre (ou Freire) significa ‘frade’. Nada melhor a quem mais no Brasil exercitou a ‘auto-missa’ de corpo presente. Um auto-de-fé às avessas. Um gosto insaciável por bendizer-se.

Ninguém como ele abrasileirou tanto a língua portuguesa, disse-o nuns versos antológicos o seu primo João Cabral de Melo Neto. Ninguém como ele, deve-se acrescentar, gostou tanto de homenagens, de recebê-las – principalmente – e de fazê-las. Estaria agora, se pudesse, publicando um artigo cujo título seria “Meu caro Pablo González”. Como as incontáveis cartas abertas com endereço personalizado que publicou na sua colaboração no Diario de Pernambuco.

Homenagem é uma palavra, um costume medieval. Idem para as defesas de teses acadêmicas. Um rito de passagem em que um aluno passa pelo interrogatório e as provas de fogo de um tribunal. Se se sobrevive, torna-se um mestre ou doutor, igual ou melhor que os seus avaliadores.

Pablo González doutora-se em antropologia. Antropologia da América ibérica que há mais de vinte anos, por arte, ciência e filosofia do professor Angel Espina Barrio tem levado dezenas de estudantes do Brasil à Universidade de Salamanca. Para estudar os assuntos que conectam a Península Ibérica ao Brasil, e vice-versa.

Dizem os historiadores que os espanhóis descobriram o Brasil alguns meses antes dos portugueses. Centenas de anos depois, Gilberto Freyre tratou de explicar o porquê e o como brasileiros, portugueses e espanhóis são `harinas` do mesmo saco. Pablo González trata de mostrar com metodologias e teorias a cabeça hispânica de Freyre.

Se houve uma Escola do Recife, talvez pudesse haver uma outra, recente, a Escola de Salamanca que, sob a liderança e inspiração do professor Espina multiplica seus feitos. Em teses de doutorado. Em congressos acadêmicos. Em publicações.

O trabalho de Pablo é um dos elos dessa rede-corrente. No ano passado, propôs e realizou com seus colegas espanhóis e brasileiros um congresso internacional sobre Gilberto Freyre e o Oriente e outros aspectos da sua contribuição às ciências sociais. O livro que resultou desse encontro vai ser publicado no próximo mês pela Editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco. Dentro de alguns meses, a mesma Fundação – inventada por Freyre – vai realizar um seminário com novos intérpretes de sua obra dos mais diferentes países.

Cada uma dessas ações termina por dar, ao menos no plano simbólico, uma resposta de permanência, de constância a um sonho de Freyre expresso num poema de 1956 que ele escreveu pensando/sentindo/vivendo Salamanca:

“Salamanca,
mestra de Dom Miguel,
me ensina a morrer
sem a certeza de perecer”.

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