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Opinião
Ao professor Enio Cantarelli

Eduardo Miranda
Cirurgião oncologista, professor de Oncologia da Faculdade de Ciências Médicas e diretor da Clínica UNIONCO

Publicado em: 26/07/2021 03:00 Atualizado em: 24/07/2021 07:03

Recentemente estive conversando com colegas professores e médicos do Oswaldo Cruz e da Faculdade de Ciências Médicas sobre a história do nosso hospital, que frequento desde 1976, quando iniciei minhas atividades lá, no primeiro ano de Medicina na UFPE.

Era um tempo de grandiosidades. Convivíamos com os Drs. Milton Lins, Eugenio Albuquerque, Fernando Pinto Pessoa e tantos outro notáveis.

Entre esses, um jovem professor, cardiologista destacado, liderança incontestável, já naquela época capitaneando as entidades médicas e exercendo sua marca de agregador nato, mestre na difícil arte de gerar confluências e vontades.

Era um artífice devotado à mais complexa e desafiadora tarefa: a harmonia na convivência humana e a capacidade de gerar construções sólidas, coletivas e duradouras.

Sempre acompanhado pela dedicada e onipresente irmã Lucimar.

Assim conheci o Dr. Enio Cantarelli.

Sempre fui seu admirador. Desde muito cedo lhe considerei a alma e a essência do Oswaldo Cruz e da Faculdade de Ciências Médicas.

Acompanhei de perto as reformas do hospital, do ambulatório, tão cuidadosamente planejadas e executadas.

Testemunhei com atenção sua presença constante e acolhedora. Sobretudo sua completa e profunda dedicação ao Oswaldo Cruz e, por consequência, aos pobres e necessitados, objetivo maior e mais nobre de nossa profissão e missão que soube realizar como ninguém.

Depois, após ausência por alguns anos para cursos e residências médicas fora de Pernambuco, encontrei-o novamente, ainda com maior vigor, enfrentando o imenso desafio de construir o Procape.

A argamassa daquelas paredes saiu de suas mãos operosas. Cada tijolo e cada camada foram cobertos pela sua vontade determinada e perseverante.

Cada paciente que é lá atendido tem um débito com sua pessoa e cada estudante e médico que ali aprende deve louvores à sua imensa obra.

Eu lá estava na inauguração do Procape. Por si só ato de coragem e ousadia. Obra de um gigante.

Recordo perfeitamente seu discurso frente ao governador de então, Mendonça Filho, que percebeu a dimensão daquele ato.

Vi, claramente, no semblante dos médicos e funcionários que todos éramos testemunhas de um tempo de glórias, de vitórias e de superação e que você, caro professor, para nossa felicidade, era nosso timoneiro, que com a mão firme e resoluta nos conduzia pelas tormentas desse mar revolto que é a assistência à Saúde nesse Nordeste do Brasil.

Mas, confiantes, chegamos a um porto seguro e sereno.

Os desafios continuam, gigantescos.

Saí do Oswaldo Cruz há dois anos, imensamente pesaroso por não poder continuar a lá trabalhar até o fim dos meus dias, porque se esgotaram totalmente minhas esperanças em poder lá continuar minha missão com dignidade e ética.

Porque lá hoje não há a seiva vital, a energia profunda e poderosa que emanava de sua tez resoluta de sertanejo forte, solidário e afeito aos grandes desafios.

Mas no Oswaldo Cruz e no Procape, e na Medicina pernambucana e brasileira há uma luz inapagável, uma energia imorredoura, um idealismo invencível, sobretudo a marca de um humanista aprofundado nas suas responsabilidades e absorvido completamente por sua nobre e elevadíssima missão. Essa luz e energia tem nome e sobrenome: Enio Cantarelli.

Um forte e fraterno abraço do seu aluno, discípulo e admirador,

Eduardo Miranda

Obs.: Essa carta foi entregue ao Professor Enio Cantarelli um ano antes da sua morte, em 1º de maio de 2020

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