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Opinião
O efeito Fata Morgana

Rodrigo Pellegrino de Azevedo
Advogado

Publicado em: 12/05/2021 03:00 Atualizado em: 12/05/2021 06:44

Era noite quando o toque insistente no celular anunciava alguém. O número desconhecido gerou a incerteza em atender ou não. Sempre peno em tomar essas decisões. Quase chego a “Analysis Paralysis” e, quando não atendo, o remorso me toma conta, o que me faz lembrar, invariavelmente, da letra de Pelo telefone, primeiro samba gravado no Brasil, assinado por Donga, “...(...)... O chefe da Polícia pelo telefone manda me avisar, ... (...)... Que na Carioca tem uma roleta para se jogar... (...) ...”

Dessa vez atendi. Têm sido recorrentes meus atendimentos nesses tempos pandêmicos. A conexão com outros e com as coisas se aceleraram de uns tempos para cá. As coisas de trabalho, ligações de cobrança, lembretes digitais, notícias urgentes, notificações, tudo tem me conectado e o efeito “FOMO – Fear of Missing Out (medo de ficar por fora) e FOBO – Fear of Better Option (medo de uma opção melhor) tomaram conta de mim.

“Pronto! Quem fala(?)” assim atendi ao desconhecido número. Um silêncio conhecido respondeu do outro lado. Engraçado como os silêncios falam. A voz grave e rouca, depois da apresentação silenciosa, e da indagação “Incomodo?” confirmou minha suspeita: Porfírio Rodrigues.

Depois do último encontro casual numa calçada, não mais nos falamos e, como de costume, de súbito, sacou mais um verso, sem dar tempo, sequer ao meu, “não, não incomoda, você não incomoda”.

Porfírio não incomoda, digo, não traz o incômodo da inconveniência inoportuna, apesar da sua constante imprevisibilidade no tempo das aparições. O que mais me aporrinha nele, são seus escritos, esses sim, pedras que se lançam sobre mim, missão que cumpro arduamente, não me desviando delas, mas equilibrando-as como malabares hipnotizado, sem entendê-las muitas vezes, mas que ao sustentá-las em movimento contra a gravidade, consigo sobreviver em seu ego.

“O quadro está vivo, (...) como a fotografia e o cheiro. (...) O vinco do lençol é o mesmo, (...) tatuado como antes. (...) Apercebo-me só, (...) sem o calcanhar na panturrilha, (...) e os dois travesseiros se encorpam. (...) Acordo sem o outro hálito, (...) temos apenas uma escova agora, (...) um cobertor, um copo, uma xícara, (...) fomos separados em definitivo, (...) sem chance de nos esbarrarmos numa esquina. (...) Não tenho nem a chance de te ver com outro, (...) estou só em definitivo. (...) Agora me restam as memórias, (...) as mentiras sobre o futuro, (...) e uma certa esperança de eternidade.”

De súbito desperto, não sabia se era noite ainda, entretanto, algumas palhetas douradas pouco cálidas, denunciavam a manhã insistente em se parir. Olhei para o lado e encontrei Lucila, dormindo. Os pesadelos e sonhos sempre acontecem nas madrugadas. São nas madrugadas que os duendes, demônios, santos e anjos se acotovelam. Não à toa, sempre nelas, não sabemos o que é horizonte. São nas madrugadas que os medos nos acordam, mas a esperança nos acaricia, distorcendo em sua luz o horizonte até nos cegar, e depois, fazer-nos enxergar.

Corri para o papel e repliquei o poema recitado por Porfírio. Não sabia se tinha recebido alguma ligação. Poema transcrito, restava-me esperar o dia. Fiz um café, fumegando sua alma dentro de casa. Olhei para o horizonte e lá estava o efeito “Fata Morgana” (Fada Morgana), ela mesma, a personagem fictícia, irmã de Arthur, capaz de mudar a aparência de tudo, sempre. Os conhecedores de física dirão que o referido efeito, nada mais é que uma distorção óptica, explicada pelo Princípio de Fermat. Entretanto, eu sei, que as miragens existem, quando da separação do ar quente com o frio, e apenas existem para fazer flutuar a esperança; invariavelmente a única coisa que nos restará nos ocasos da vida.

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