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Opinião
Um clássico em vida

Guiomar de Grammont
Escritora e coordenadora do Fórum das Letras de Ouro Preto

Publicado em: 19/04/2021 03:00 Atualizado em: 19/04/2021 05:27

Acabo de receber os livros incríveis de Raimundo Carrero, um dos raros escritores brasileiros que é clássico em vida, e que eu tive a honra de editar na Record. No portentoso volume intitulado Condenados à vida, são republicados quatro dos romances mais recentes do autor – os livros Maçã agreste, Somos pedras que se consomem, O amor não tem bons sentimentos, e Tangolomango, ritual das paixões deste mundo, que eu tive a honra de editar, quando fui editora executiva da Record, em 2012 e 2013.  Como escreve Castello, no inspirado  prefácio ao livro, “Carrero nos confronta, todo o tempo, com uma zona obscura que ultrapassa os limites humanos” e sua escrita “é uma trança de vozes que se misturam, se acasalam e se agridem, é uma enigmática sinfonia.”

A leitura desses livros, além de impactante, é muito envolvente, com frases curtas, tocando no âmago das coisas. Carrero tem uma literatura que nos envolve vertiginosamente em sua voragem de palavras. E, ao mesmo tempo em que nos atrai, em uma leitura avassaladora, até o fim de seus livros, nos assusta pelo que revela de nós mesmos. Somos capazes de indiferença diante das mazelas humanas que seus livros apresentam, de um inominável horror. O leitor se vê tomado, como muitos de seus personagens, por uma impotência diante da crueldade e da banalidade do Mal, tão comuns nos dias de hoje, em que assistimos ao recrudescimento do fascimo, de que ele também trata, por exemplo, na “limpeza da raça” preconizada pelo Jeremias, de Maçã agreste. Seus personagens são seres confrontados com a ignomínia, a miséria humana, a devassidão moral, mas também com a solidão inalienável da existência, como no caso da tia Guilhermina, de Tangolomango. No livro de contos Estão matando os meninos, ele tematiza o genocídio policial que se abate sobre o Brasil, com a morte de crianças inocentes por balas perdidas. São livros indispensáveis, hoje, quando o governo, que deveria proteger os cidadãos, insiste absurdamente pela liberação da posse de armas. Por isso, recomendo vivamente a leitura desse autor, indispensável para o nosso século.

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