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Opinião
A Trégua

Rodrigo Pellegrino de Azevedo
Advogado

Publicado em: 21/04/2021 03:00 Atualizado em: 21/04/2021 03:57

O livro do judeu italiano, Primo Levi, A Trégua (1963), continuação narrativa do livro É isso um Homem, impactou-me profundamente quando o li, nos idos de 1997, por apresentar dentre suas diversas chaves de interpretação, uma que, atualmente, me fez reconectar este presente vivido, com o passado do escritor, guardadas as proporções e intensidades dos tempos.

Essa chave de leitura, relembrada, fala da conexão entre o impasse do vazio, na perspectiva vivida por Levi na prisão em Auswchwitz-Birkenau, em conexão com a liberdade alcançada, após intervenção do Exército Vermelho, após o fim da guerra. Em ambas, o caos se instalou, não somente no mundo físico humano, deteriorado pela guerra e pelo “pós-guerra”, mas também na alma, corroída pelo tempo vivido por Primo Levi na prisão. Alma esta, novamente aguilhoada pela suposta liberdade oferecida pelo vencedor. Que liberdade seria possível ao sobrevivente do holocausto sem posses, emprego, casa, família, renda, oportunidade ou amizade? A liberdade oferecida sem condições seria uma liberdade?

Penso que teremos um pouco disso no Brasil com o fim da pandemia e com a continuação das nossas vidas, após a almejada imunidade. Se no livro, o autor narrava através das imagens vividas, as contradições da liberdade, no Brasil, com os liberados e dilacerados pela bestialidade econômica do vírus, assistiremos ao caos dos “refugiados” da pandemia. Os vitoriosos, (sobre)vividos com posses, continuarão o júbilo da vitória sobre a morte, mas os sem empregos ou posses, não terão de onde reconstruir suas vidas. Viveremos uma espécie de pós-guerra. Precisaremos de boas lideranças.

Com isso, nossa incapacidade de construir pontes, em todos os sentidos, nos fez conseguir fazer existir no Brasil, em concomitância, uma crise sanitária, econômica e política com decibéis narrativos altíssimos, de parte a parte, algo que soa quase imperceptível, ante a naturalidade que se instalou nas pessoas, ao estar sempre com o dedo em riste, para um e para o outro, tratando das vidas de todos, tal qual objeto de afirmação de seu credo.

Penso que essa nossa guerra começou bem antes, lá atrás, deflagrada no ano de 2013, com os movimentos de rua que ainda não foram assimilados ou bem interpretados por toda nossa classe política. O ano de 2013 não acabou até hoje. Em seu périplo de lá para cá, tivemos um impeachment de uma presidente da República, uma eleição, sem precedentes, de um presidente que não participou de debate algum, além da malfadada pandemia, tratada de forma mercurial pelo Executivo Federal, assim como com desídia por alguns governos estaduais (vide o caso do Rio de Janeiro, pobre Rio de Janeiro), apenas para citar um exemplo notório.

O fato é que estamos, no presente, vendo ressurgir outra nova tensão à vista, o que chamo de briga de um suposto futuro com um improvável passado, operando-se no presente caótico. Idêntica quase ao filme Tenet, de Christopher Nolan, título “palíndromo” de uma ficção perfeitamente adaptável à realidade política do Brasil. Brasil pode ser lido hoje, indistintamente, da esquerda para direita, ou vice-versa, como palíndromo que só interessa a dois populismos. Definitivamente não entendemos os sinais de 2013 e insistir nesse palíndromo é brincar à beira do precipício.

Nego-me, definitivamente, em cair nas pegadinhas retóricas formuladas por pessoas que resumem a realidade a um sistema binário de bem contra o mal, cujos polos somente se justificam com os sinais do “mais” contra o “menos”, através dos quais, as narrativas se aglomeram em terror acerca do valor único de cada um desses mesmos polos, tornando impossível a existência de um meio, de um centro.

O Brasil precisa de uma trégua. Desde 2013 estamos vivendo em guerra. Uma guerra infinda, insistentemente pelejada entre supostos futuro e passado, a despeito do espanto presente em tantas pessoas que, absolutamente, não se interessam por ela, mas que dela padecem, como condenados a um presente insólito, formulado pelas retóricas convenientes. Para tanto, urge que rompamos com o palíndromo político posto, sob pena, de sermos encontrados caídos, no vão da escada da história, sem saber se sucumbimos por acidente, ou suicídio.

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