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Opinião
Por que não devemos nos esquecer do longínquo ano de 1891

Luciano Alberto de Castro
Cronista e professor da Universidade Federal de Goiás

Publicado em: 06/07/2020 03:00 Atualizado em: 06/07/2020 05:17

Datas e acontecimentos antigos me fascinam. Essa afinidade com a História talvez advenha de certa curiosidade mórbida que carrego desde menino. De onde vem esse termo? Por que tal rua tem esse nome? Onde e quando nasceu tal autor? E por aí seguem as indagações, como um carro desembestado. É mesmo um vício, um distúrbio. Antes, a fonte era a Barsa. Hoje, o celular (o que intensifica o estranho sestro). A coisa revela-se ainda mais grave quando, além de obter a informação, enleva-me o requinte de preservá-la na memória. Aí, eu invoco a Santa Mnemônica. E funciona mesmo. Usei-a para decorar o nome dos 38 presidentes da República. Na sequência correta. De Deodoro a Bolsonaro. Por falar em política e fatos históricos, outro dia, fiquei encafifado com o ano de 1891. A data não está entre as mais lembradas no Brasil, mas esconde alguns nexos históricos bem peculiares.

O que aconteceu no Brasil em 1891? Decerto, muita coisa. Uma verdadeira avalanche política. A jovem república capengava e provava o gosto amargo do autoritarismo. Já se ouviam suspiros saudosos pelo imperador deposto. Em janeiro, Benjamin Constant, o cérebro do movimento republicano, falece precocemente e não vê os auspícios do seu idealizado republicanismo. Sai a nova constituição. Eleito por via indireta, Deodoro da Fonseca torna-se o primeiro presidente; mas o seu governo desastroso duraria apenas 9 meses. Em novembro, a Revolta da Armada catalisa a renúncia do marechal “tarimbeiro” (fica a dica, Bolsonaro). Como um presságio brasileiro, assume o vice: Floriano Peixoto. A postura firme do Marechal de Ferro inaugura o primeiro “ismo” na política nacional (o ferrenho Florianismo teria uma coerência cartesiana, se comparado ao Bolsonarismo atual). Em dezembro, o imperador Pedro II falece, em Paris, aos 66 anos. Morrem, no mesmo ano, Benjamin Constant e Pedro II. O caçador e a caça.

Impressionante como as figuras de Constant e Pedro II se aproximam e se distanciam. Benjamin era professor por vocação e militar por obrigação. Um idealista e Comtista convicto. Foi professor de matemática dos netos do imperador. Pedro II era o governante carismático, de aura boa, amante dos livros e das artes. Constant, também amante das ciências, protegeu o imperador contra a sanha dos republicanos mais radicais. O imperador, mesmo sabendo das ideias republicanas de Constant, não o perseguiu na sua carreira docente e militar. Ambos transpiravam probidade e certa ingenuidade. Havia respeito mútuo. Eram antípodas. Viviam em lados opostos, mas se conectavam tacitamente. Ambos eram austeros, ensimesmados, tristes (Pedro II era tristíssimo) e atormentados por fantasmas do passado. Tendo encontrado a morte no mesmo ano de 1891, enfim, achavam-se do mesmo lado: o lado de lá. Arrisco-me a dizer que conversaram amigavelmente e acertaram as diferenças.  

Concebo que 1891 sintetizou uma ruptura, o fim do hibridismo político. Parece que a república precisava purgar as sombras do império, para, enfim, deslanchar pelas mãos férreas de Floriano Peixoto. Simbolicamente, em 1891, o Brasil perdia o idealismo de Constant e a serenidade austera de Pedro II. Mau agouro. Otto Lara Resende costumava dizer que saudosismo e pigarro são cacoetes de velho. Perdoe-me, velho Otto, mas os duros dias atuais fizeram-me nostálgico. Uma certa “saudade imperial” como você escreveu em homenagem aos 100 anos de morte do Magnânimo.

Hoje, o Brasil enfrenta talvez a guerra mais difícil da sua história. Lutamos contra um inimigo invisível, insidioso, impiedoso. A guerra contra o coronavírus é terrível, como todas as guerras; mas é, particularmente, estranha, sufocante, desigual. Para vencê-la, não precisamos de bravatas militares, fanatismo religioso, negação da ciência e ataques à impressa. Precisávamos (tempo verbal saudosista) sim, do equilíbrio, da sobriedade, do apoio à ciência e da liberdade de imprensa que deixaram desvalido o Brasil em 5 de dezembro de 1891.

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