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Opinião
Os sinos de Narbonne

Luzilá Gonçalves Ferreira
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 02/06/2020 03:00 Atualizado em: 02/06/2020 05:23

Quando os holandeses saquearam Olinda, tiveram a ideia de retirar os sinos das igrejas. Ideia brilhante,  duplamente útil.  Serviriam de base para o fabrico de canhões, abalariam o orgulho da olindesa gente, pois pontuavam as horas e  acontecimentos da vida diária, batismos, mortes, casamentos. Em conhecido poema marcado pela economia de palavras e meios de expressão, Manuel Bandeira significou a presença dos sinos em sua vida, o sino da igreja de Belém assinalando o nascimento de um sobrinho, o sino da paixão prenunciando a morte do irmão. Em livro de memórias, Simone de Beauvoir lembra a alegria jamais esquecida do toque dos sinos de igrejas parisienses, comemorando a Liberação e o fim da guerra 39-45. O turista que visita Narbonne, cidade do Sul da França fundada pelos romanos – Julio César instalara ali uma de suas Legiões – se surpreende de repente, às 4 horas da tarde por belíssimo, longo e extraordinário concerto dos sinos da  Catedral São Just. E um guia explica: no século 11 de nossa era, Narbonne sofreu avassaladora epidemia. Quando aconteceu o que se julgara ser a última morte de vítima da peste, os sinos de Saint Just espalharam um concerto de alegria, através da cidade, durante muitos minutos, às 4 horas da tarde. E desde então, àquela hora, Narbonne festeja a vitória da vida, lembra ao visitante, que os sinos também tocam por ele.

No século 16 o poeta inglês John Donne escreveu em Meditações, estas palavras que quase todo mundo conhece: “Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado, é um  pedaço de um continente (...) A morte de qualquer homem me diminue porque sou parte do gênero humano. Por isso, não pergunte por quem os sinos dobram: eles dobram por você.” Uma  expressão que Ernest Hemingway utilizou em romance transformado em belo filme, de 1943, estrelado por Ingrid Bergman e Gary Cooper. Ele, um americano, vai à Espanha participar da luta fratricida, que matou tantos espanhóis, inclusive o poeta Garcia Lorca, ela espanhola, uma militante da resistência. Apaixonam-se. No final, o americano se questiona sobre a desgraça que é a guerra, as ideias que dividem irmãos, que levam a odiar, a matar, a morrer.  E quando ouvem dobrar os sinos e que Maria, quer saber  quem morreu, ele responde “Quando ouves tocar  os sinos, não perguntes por quem eles dobram, eles dobram por ti.” O leitor perdoe esse rápido resumo, incompleto e talvez pouco fiel a Hemingway e ao filme. Mas é que, ao ouvir as notícias contraditórias sobre a epidemia que nos assola, sobre o mundo, sobre a loucura que tem atacado alguns brasileiros, o ódio consequente, a incrível indiferença, o descaso, ante o cotidiano aumento do número de mortos,  pensei não exatamente nos versos de Donne, nem no belíssimo rosto de Ingrid Bergman. Mas quando os sinos de nossas igrejas brasileiras soarão como os sinos de Narbonne, anunciando o fim do pesadelo.

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