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Opinião
Aos que cuidam da gente

Marcelo Alves
Procurador Regional da República. Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King%u2019s College London - KCL. Mestre em Direito pela PUC/SP

Publicado em: 20/05/2020 03:00 Atualizado em: 20/05/2020 06:11

Daqueles na linha de frente do combate ao coronavírus, os profissionais de enfermagem – enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem – são, de longe, os que mais têm perdido suas vidas para salvar as nossas. Só no Brasil, já são para lá de 100 mortos. E digo isso com especial tristeza, quando “celebramos”, na semana passada, o Dia Internacional do Enfermeiro.

A enfermagem é uma das mais antigas “profissões da saúde”, sabemos, muito embora, por séculos, nos hospitais de então, em sanatórios ou nas instituições religiosas que prestavam esse tipo de assistência, o atendimento por esses profissionais fosse muito mais heroico do que técnico e científico. A Idade Média, em especial, foi um período sombrio para a enfermagem.

Segundo verifiquei no meu livrão Medicine: the Definitive Illustrated History (Dorling Kindersley Limited, 2016), coordenado por Steve Parker (1952-), a coisa só veio a mudar, para melhor, lá pelo século 19. Foi precursor, na Alemanha, o belo trabalho do pastor Theodor Fliedner (1800-1864), que “abriu um hospital na região do Reno em 1836. Ali, às enfermeiras eram dadas instruções clínicas e de farmácia – a prática de preparar e dispensar drogas. Esse curso de enfermagem era bastante avançado para a época, e a mais famosa aluna de Fliedner – Florence Nightingale – passou três meses no hospital em 1851. Lá pela metade do século 19, o conceito de mulheres sendo capacitadas como enfermeiras estava bem estabelecido”.

E aqui chegamos certamente à principal personagem desta história: a enfermeira Florence Nightingale (1820-1910). Nascida em abastada família inglesa, ela foi a grande reformadora da enfermagem. Mulher de grande força de vontade, trabalhou heroicamente na Guerra da Crimeia (1853-1856), restando ali conhecida como “A Senhora da Lâmpada”. Dizem – e damos isso como certo – que seu trabalho reformador, ali e depois, salvou muitas vidas. As mulheres enfermeiras foram fundamentais na guerra e depois. Em 1860, Nightingale fundou uma escola de enfermagem no St. Thommas Hospital, em Londres, ajudando a estabelecer a enfermagem como uma carreira respeitável para as mulheres de então. Seguindo o exemplo da pioneira, associações e escolas de enfermagem ganharam o mundo, com o reconhecimento da nobre profissão. Aliás, o Dia Internacional do Enfermeiro é comemorado em 12 de maio exatamente por ser esse o dia em que Nightingale nasceu.

Com o passar dos anos, a coisa avançou ainda mais. Se do tempo de Nightingale até a 1ª Guerra Mundial as enfermeiras eram responsáveis pela higiene dos pacientes, por cuidados paliativos e pela aplicação dos fármacos, certas barreiras agora foram rompidas. Em muitos países, como li no meu livrão, “o trabalho das enfermeiras avançou para ocupar um espectro bem mais amplo de cuidados médicos. Enfermeiras modernas não são apenas cuidadoras – elas têm de apresentar um alto nível de competência técnica e podem atuar como clínicos gerais, diagnosticando doenças e tomando decisões sobre os tratamentos adequados”.

Dito isso tudo, antes de terminar, farei ainda duas observações pessoais.

A primeira é que, quando do meu doutorado no King’s College London – KCL, dei muito de cara com a imagem e a história de Nightingale. O St. Thommas Hospital é vinculado ao KCL e é famosíssima a sua “Florence Nightingale Faculty of Nursing, Midwifery & Palliative Care”. Penitencio-me de não haver diariamente homenageado a grande enfermeira.

A segunda, que faço por um dever moral, diz respeito às tristes cenas que presenciamos estes dias, com tresloucados, em Brasília, agredindo enfermeiros e enfermeiras que ali homenageavam colegas mortos na atual pandemia. As imagens me chocaram. Não chocaram vocês? Seria uma nova banalidade do mal? E logo contra quem cuida da gente?

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