Diario de Pernambuco
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Opinião
O sistema financeiro brasileiro e o parasita

Rodrigo Pellegrino de Azevedo
Advogado

Publicado em: 06/03/2020 03:00 Atualizado em: 06/03/2020 10:12

Dados recentes estampam o Brasil como um país com aproximadamente 65% de suas famílias endividadas. Esse fato me faz refletir que um país com esse contingente de famílias, nesta situação, ajuda na infelicidade geral. E a felicidade dos seus deveria suscitar, no mínimo, a reflexão de governos, dos políticos, dos negócios, da sociedade.

Algumas falas “justificam” o incontestável e a pergunta “por que os juros são tão altos no Brasil(?)” segue, ao menos em meu périplo de indagações ao mundo mágico dos economistas, sem que tenha recebido, até hoje, uma resposta convincente e decente.

Os juros são escorchantes no Brasil. Fato. O que acontece é que sai governo e entra governo, com a Taxa Selic alta ou baixa, continuam os juros ao consumidor e para as empresas em patamar vergonhoso.

Alguns amigos me dizem que o nosso mercado de crédito é desenhado para não incentivar os bancos a emprestarem dinheiro. Tudo bem, mas se com esse “desincentivo”, o lucro médio dos bancos no Brasil cresceu 18% em 2019, com uma soma de R$ 81,5 bilhões, imaginem se incentivados?

Sigamos nas justificativas. Esses mesmos “ecônomos” da esperança financeira nacional dizem que os bancos captam recursos para emprestar. Maravilha, entendi, banco “vende” dinheiro com um “ágio” a ser pago de volta meses ou dias depois, com o intuito de remunerar os “sócios” depositantes, cobrir seus custos, e receber lucros para novamente poder aumentar o seu ciclo de negócios.

E dizem que, ao emprestarem esses recursos, se há inadimplência, o custo da recuperação do crédito é altíssimo e de difícil operacionalidade o que justificariam esses juros altíssimos, amparando ainda esses argumentos com a informação de que, segundo o Banco Mundial, o Brasil é classificado como o pior país emergente do sistema financeiro na capacidade de recuperar créditos (170° de 180 países). Novamente tudo bem, mas, com tudo isso, volto a repetir; o lucro médio dos bancos no Brasil cresceu 18%, com uma soma de 81,5 bilhões de reais.

O fato é que a política de juros no Brasil é a única variável macroeconômica que destoa, de forma evidente, de toda a experiência internacional, o que torna o Brasil uma “sinecura” de poucos, sustentados por uma massa de falidos e no subdesenvolvimento de uma grande maioria de pessoas.

Enquanto não há um consenso quanto ao “ovo ou a galinha” do terror financeiro dos cidadãos, tramita o PL 7.590/2017, com proposições para que todo devedor possa, antes de declarada a insolvência, apresentar um plano de recuperação judicial pessoal.

Essa é uma proposição que poderia ampliar a satisfação do crédito e dar conforto para as pessoas. Está na hora do Brasil pensar em recuperar a dignidade de seus cidadãos. A tese de “aumentar o bolo” para que a repartição atinja uma maioria, apenas incha o modelo atual dos ganhos, não desenvolve e não reparte esse mesmo bolo.

E assim, afinal, em conceito, parasita, “é o organismo que vive de e em outro organismo, dele obtendo-lhe alimento e não raro causando-lhe dano”. Respondamos: quem parasita quem neste país?

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