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Opinião
Editorial O feminicídio se constrói aos poucos

Publicado em: 14/02/2020 03:00 Atualizado em: 14/02/2020 09:05

Havia uma aparente felicidade estampada no rosto de Raphael Cordeiro Lopes, 32 anos, na derradeira foto ao lado da companheira e mãe de seu filho de um ano, Leandra Gennifer da Silva. A imagem congelada e amplamente divulgada na imprensa mostra o casal em uma prévia carnavalesca. Estão abraçados. Horas depois da cena, Leandra estaria morta. Tinha apenas 22 anos. O suspeito é Raphael, o mesmo que dizia amar Leandra. A mudança brusca na condição de Leandra no mundo é chocante. De foliã a mulher assassinada. E isso nos pede reflexões.

No mundo virtual, o casal era feliz. Em casa, Leandra seguia cercada de câmeras instaladas pelo marido. Era como prisioneira. Também era impedida por Raphael de trabalhar como fotógrafa, profissão que escolheu. No dia da fuga daquela cela chamada casamento, foi aniquilada pelo homem com quem dividia o mesmo teto, em uma relação supostamente amorosa. Ainda pior - como se isso fosse possível - na frente do filho. Uma criança repentinamente tirada do convívio da mãe, agora morta, e do pai, foragido da polícia.

O feminicídio se constrói aos poucos, nos detalhes do dia a dia da relação. Vem maquiado de ciúmes. Cuidado. Amor. Tudo mentira. Contada de geração em geração. A homens e mulheres. Desde a infância. Em nome da manutenção do patriarcado. E da submissão da mulher.

O amor, esse sim, implica ajudar a companheira nos trabalhos domésticos. Na educação dos filhos. Na divisão das contas da casa. Na compreensão da falta de libido diante do cansaço diário de tantas tarefas mentais e braçais a serem exercidas. Sim, é a mulher quem assume majoritariamente até o trabalho de planejamento, organização e tomada de decisões em casa. E isso também cansa.

Feminicídio não é crime passional, como taxava a imprensa até pouco tempo atrás e como ainda insistem alguns comunicadores e policiais. Não há mais espaço para atribuir à mulher a culpa por um crime brutal onde somente ela é a vítima. Sim, porque falar de crime motivado por ciúmes ou passional é como culpar a mulher pela sua própria morte. É isentar o homem da violência. É passar a mão na cabeça. Quando o certo é punir no rigor da lei.

Não é culpa da mulher. Usar saia curta, por exemplo, não é convite para o assédio ou o estupro. É simplesmente usar a roupa desejada. Nada mais. Quem pensa além disso é quem está errado. Ruas sem iluminação pública adequada são, essas sim, um convite à violência contra as mulheres. Falta de oferta de emprego para mulheres, isso sim, é mantê-las dependentes de relações violentas. Nesse caso, a culpa é dos gestores que não priorizam políticas públicas de segurança, emprego e gênero em suas cidades.

Curioso observar quantos desses homens se autodeclaram, logo após o feminicídio, vítimas da própria “insanidade passageira”. Poupem-nos dessa condição psicológica quando o nome correto, muitas vezes, é crime premeditado. Com uso de arma de fogo guardada em casa. Não se sabe por qual motivo. Ou se sabe.

Quem e o que está produzindo esses homens por trás do feminicídio? Essa pergunta também precisa ser respondida. Porque se essa sangria não for estancada, morremos todos. Como famílias. Como sociedade civilizada.

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