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Opinião
Justificado!

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República. Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King's College London - KCL

Publicado em: 27/02/2020 03:00 Atualizado em: 27/02/2020 09:06

Li O ócio criativo (Editora Sextante, 2000), livro do sociólogo italiano Domenico De Masi (1938-), faz um bocado de tempo. Era jovem. Na casa dos vinte anos. Talvez, quisesse justificar a indolência – ou as farras – da época. Considero tudo plenamente justificado!

“O homem que trabalha perde um tempo precioso”, esse poderia ser o mote, bem-humorado, do livro de De Masi. Mas será que a coisa é tão simples assim? Trabalhar pouco pode ser uma filosofia de vida, a ser passada de geração em geração? Claro que não. A coisa é mais sutil, como explica Maria Serena Palieri na introdução a O ócio criativo: “Digamos – com a força paradoxal do humor – que o lema sintetiza a teoria de De Masi: o futuro pertence a quem souber libertar-se da ideia tradicional do trabalho como obrigação ou dever e for capaz de apostar numa mistura de atividades, onde o trabalho se confundirá com o tempo livre, com o estudo e com o jogo. Enfim, o futuro é de quem exercitará o ‘ócio criativo’”. Aliás, como certa feita disse o educador – e ótimo frasista – Laurence J. Peter (1919-1990), “o melhor teste à inteligência é aquilo que nós fazemos com o nosso tempo livre”.

Em O ócio criativo vai também uma defesa do descanso periódico do trabalho, longe dos problemas da vida cotidiana. Um tempo para nós mesmos, nossas famílias e para as coisas simples da vida – que, já se disse, são as mais importantes. Um tempo para o cultivo de interesses mais amplos – esportes, estudos, viagens e outras coisitas mais. Isso parece haver sido compreendido, nesta virada de século, pelos estudiosos da questão. Reformas legais no mundo todo têm levado a jornadas de trabalho mais curtas. E o que se faz com esse tempo livre é essencial, ajudando na produtividade do trabalhador quando de volta à labuta. Isso sem falar na crescente indústria do lazer, tão importante para a economia de qualquer país (mas essa riqueza gerada pelo lazer é outro assunto, que merece uma crônica por si só).

De toda sorte, a temática é até bíblica (Eclesiastes, capítulo 3, versículos 1-4): “1. Para tudo há um tempo: 2. (…) tempo de plantar e tempo de colher. 3. (…) tempo de demolir e tempo de construir. 4. Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de gemer e [até] tempo de dançar”.

Por falar em tempo para tudo, eis que chega o carnaval. Nada melhor do que uma desculpa para cairmos na gandaia. Ou no ócio cultural, se quisermos ser mais elegantes. Mais do que uma desculpa, podemos até ter uma justificativa! A melhor delas, acredito, foi dada por dom Helder Camara (1909-1999), que era quase um santo, no seu programa na Rádio Olinda, lá pela década de 1970: “Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: Oh jardineira por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? (…) Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu. Brinque, meu povo querido! É verdade que na quartafeira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”.

E se o sociólogo recomenda, e se o santo manda, “nóis”, pecador, obedece. Brinquemos, então. Hoje, com a moderação da idade. Mas com a saudade de um tempo em que podíamos e bebíamos de tudo. No carnaval, até gasolina.

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