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Opinião
Visões discordantes

Jacques Ribemboim
Economista ambiental
jacquesribemboim@hotmail.com

Publicado em: 14/01/2020 03:00 Atualizado em: 14/01/2020 08:51

O trânsito no Recife tornou-se um castigo cotidiano, obstruindo a economia, causando danos à saúde e ao meio ambiente. Nesse contexto, causa-nos inquietação o artigo de Taciana Ferreira (DP de 04.01.2020), presidente da CTTU, a começar pelo título redundante: “O protagonismo recifense da mobilidade é das pessoas”. Como se o conceito de mobilidade urbana não fosse intrínseco à locomoção do ser humano.
 
No artigo, a autora cita números, estatísticas, mostrando que a prefeitura tem priorizado pedestres e ciclistas. Seria bom se fosse somente isso, como fruto de um bom planejamento. Na verdade, faltam recursos para obras estruturadoras, pontes, viadutos, avenidas e ciclovias de verdade – não esses arremedos que são feitos por aí, subtraindo-se faixas de ruas, pondo-se em risco a vida dos usuários (o caso da Avenida Fernando Simões Barbosa é emblemático). E acrescenta: “a Prefeitura do Recife tem investido massivamente na mobilidade da população, ao invés de focar nos veículos”. Ora, os veículos não contêm pessoas?
 
É preciso lembrar que o grupo político ao qual pertence foi responsável pela política nacional de estímulo à aquisição de carros, inclusive entre os mais pobres. Política essa que requereu sacrifícios à sociedade e uma renúncia fiscal da União que nocauteou os estados e municípios brasileiros. Agora, parece-nos que o governo quer punir os que nele acreditaram. Há inconsistência nessa história.
 
Registre-se, adicionalmente, que as democracias modernas estão evitando ações que melhorem a vida de uns em detrimento de outros. Seus governos são para todos e não devem desprezar nenhum grupo social, ainda que minoritário. Costumam optar por critérios Pareto-eficientes, políticas do tipo win-win, em que todos saiam ganhando, com maiores ganhos para os mais necessitados.
 
Acertadamente, o mundo evolui para a utilização de transportes de menor impacto ambiental, como bicicletas, ônibus, veículos sobre trilhos, navegação fluvial. Mas isso não significa penalizar – de uma hora para outra – os que preferem automóveis ou deles necessitam. Aliás, por falar em navegação fluvial, por onde anda o circuito do Capibaribe, aquele que custou milhões de reais aos contribuintes e permanece inacabado?
 
Sim, é de suma importância reduzir commuting costs, isto é, os custos em termos de qualidade de vida, tempo e dinheiro gastos para se chegar ao trabalho ou à escola. As famílias de baixa renda que moram nas periferias urbanas merecem toda a atenção para encurtar suas viagens. Nesse sentido, cada país, cada grande cidade, investiga soluções específicas para reduzir seus congestionamentos. Ordenamento territorial, recuperação dos centos urbanos, melhoria do sistema viário, construções de garagens públicas, adoção de novas tecnologias, interligação entre múltiplos modais (não somente Terminais Integrados), enfim, tudo aquilo que a prefeitura do Recife se esqueceu de fazer.
 
Para piorar o trânsito ainda mais (desafiando o impossível), a administração pública decidiu instalar uma série de ilhotas de concreto no meio dos cruzamentos, “refúgios para pedestres”, geralmente inócuos, eles próprios causadores de acidentes. Não se fala de campanhas educativas para motoristas, ciclistas e pedestres, mas se multiplicam os radares, os amarelinhos e os azuizinhos que, em lugar de ajudarem no escoamento dos veículos, empenham-se na aplicação de multas. Aplausos, apenas, para a reforma das calçadas que está sendo feito nas ruas do centro, o Zona Azul digital e a tentativa de consertar os erros cometidos na Conde da Boa Vista.
 
Permita-nos, Taciana Ferreira, discordar de seu artigo unifocal e propagandístico. A cidade é de todos e para todos. E o seu governo também deveria ser.

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