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Opinião
Obrigado, Alepe

Cláudio Lacerda
Professor de Cirurgia da UPE e da UNINASSAU

Publicado em: 09/11/2019 03:00 Atualizado em: 11/11/2019 09:37

Joaquim Aurélio Nabuco foi certamente um dos pernambucanos que mais dignificaram a nossa história. Jurista, escritor, diplomata e jornalista, nasceu de família tão nobre quanto escravocrata e tornou-se um dos mais combativos e importantes abolicionistas do país. E foi mais além, lutando pela inclusão social dos ex-escravos, para, ai sim, a conquista da liberdade plena.

Por isso, ao ser informado de que eu seria condecorado com a Medalha que leva o seu nome – a mais alta comenda da Assembleia Legislativa de Pernambuco, fui tomado de surpresa e alegria. Surpresa porque nunca me imaginaria merecedor de tão honrosa comenda. Alegria porque, vinda do deputado Alberto Feitosa, pessoa de cuja amizade eu não desfrutava, tal indicação soava como uma homenagem de intenção meritória e desinteressada. Isso me fez sentir ainda mais determinado a continuar dando a minha modesta contribuição para elevar a qualidade da medicina que oferecemos à nossa gente.

Durante horas de reflexão, repassei com humildade toda a minha vida profissional, buscando os motivos que me poderiam ter levado a tão grandioso reconhecimento. Pensei na grande equipe multidisciplinar que lidero no Hospital Universitário Oswaldo Cruz, que tem demonstrado que é possível fazer medicina de ponta em hospital público do Nordeste. Que é possível tratar os nossos humildes pacientes com dignidade, respeito e carinho. Que é possível liderar um grupo multiprofissional, conciliando disciplina com criatividade, hierarquia com coleguismo, profissionalismo com harmonia e tecnologia com humanismo. Que é possível resgatar, nos jovens estudantes e residentes, a altivez e a autoestima nordestina dos que não se conformam com a condição de eternos subdesenvolvidos, condenados ao colonialismo cultural e científico. Que exigem o de melhor para a nossa gente, mas não se juntam à legião dos ressentidos. Dos que pensam terem nascido na Suécia. Que criticam, protestam, culpam governo e políticos por tudo, mas não fazem a sua parte. Formamos médicos que sabem pertencer a uma elite de privilegiados numa sociedade injusta, com milhões de excluídos, e que, por isso, têm o dever histórico de mudar.

Pensei também no Programa de Transplante de Fígado que criamos há vinte anos e que hoje está entre os maiores do mundo, com 1441 realizados e mais de 110 feitos só este ano, todos pelo SUS. E acreditem: esse esforço tem valido a pena. Um colossal alcance didático para centenas de profissionais de saúde. Vidas sendo salvas cotidianamente, com recuperação plena. Intervenções inéditas no meio, como o transplante em dominó - com técnica que nós mesmos criamos, o duplo fígado-rim, o intervivos e, mais recentemente, o Split, em que dividimos um único fígado para dois receptores.

Se mereci essa comenda, sob a justificativa do reconhecimento público da minha contribuição à sociedade pernambucana, cabe-me proclamar aqui a minha gratidão por esse gesto. Porque ele atesta que os últimos 20 anos de exercício da missão a que me devotei não passaram despercebidos pelos que definem os marcos legais da nossa convivência social, de olhos postos no futuro a ser edificado pelos pernambucanos.

A propósito, escrevendo sobre sua formação, Joaquim Nabuco reconheceu que “o traço todo da vida é para muitos o desenho da criança esquecido pelo homem, e ao qual este terá sempre que se cingir sem o saber...” A medalha que carrega seu nome é, para mim, muito mais do que um sinal de distinção. É um desafio para os meus próximos passos. Daí porque reitero, mais do que nunca, o compromisso de persistir, sem trégua nem perda de foco, a serviço da vida, da dignidade e da liberdade, tal como concebida por ele, Nabuco.

E que Deus me dê forças para prosseguir firme nessa missão.

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