Diario de Pernambuco
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Opinião
Editorial O risco continua

Publicado em: 06/11/2019 03:00 Atualizado em: 06/11/2019 08:51

As barragens em Minas, e por extensão no Brasil, continuam tendo alto potencial para causar sérios danos humanos, ambientais e econômicos em todo o território nacional. A fundamentação dessa afirmativa está no estudo denominado Atlas das Barragens da Mineração de Minas Gerais, elaborado por professores de universidades federais do estado. A constatação se dá justamente depois de quatro anos do rompimento da Barragem do Fundão, na histórica Mariana, completados ontem (saldo de 19 mortos), no que pode ser considerado o pior desastre socioambiental do país, e do desastre de Brumadinho, com o colapso da barragem da Mina Córrego do Feijão, provocando a morte de 252 pessoas e o desaparecimento de 18.

A própria Agência Nacional de Águas (ANA) reconhece que a precária fiscalização e a falta de recursos impedem a manutenção das barragens espalhadas pelo Brasil. Em Minas, onde a atividade minerária é uma das bases da economia, o número de estruturas em risco é mais elevado. Das 20 represas com maiores volumes de rejeitos no Brasil, 15 encontram-se em solo mineiro. Também estão no mapa de monitoramento da ANA reservatórios com possibilidade de se romper na Bahia, Alagoas e Rio Grande do Norte, o que pode causar nova catástrofe humana, ambiental e social.

O atlas elaborado por especialistas das universidades federais de Minas Gerais (UFMG), de São João del-Rei (UFSJ) e de Itajubá (Unifei), com a colaboração de pesquisadores dos Estados Unidos, Alemanha e Israel, confirma o temor das pessoas que vivem em áreas próximas aos reservatórios.

O levantamento indica que 40% das 367 barragens de rejeito de mineração cadastradas pela ANA no estado oferecem alto risco às populações ribeirinhas, ao patrimônio histórico-cultural, à infraestrutura urbana e rural e ao meio ambiente. Basta lembrar que a tragédia de Mariana deixou um rastro de destruição nos 600 quilômetros ao longo do Rio Doce, em Minas e no Espírito Santo, chegando até a foz, no Oceano Atlântico, com graves reflexos nas atividades econômicas. E à catástrofe humana de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, soma-se a contaminação por resíduos tóxicos do Vale do Paraopeba.

Medidas são adotadas pelas mineradoras para a desativação das estruturas que estão em situação de perigo. Os órgãos oficiais redobraram a fiscalização, mas os meios do poder público para o controle da atividade continuam precários. Reservatórios podem ser seguros, mas a proximidade a aglomerações urbanas aumenta a probabilidade de danos em caso de rompimento. Diante desse cenário, deve haver uma maior integração entre órgãos estaduais e federais para o compartilhamento de dados e informações sobre barragens associadas à mineração, bem como hidrelétricas, do setor industrial e outras. Impõe-se, ainda, a elaboração de um plano nacional de gestão ambiental de reservatórios, para que outras tragédias não aconteçam.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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