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Opinião
O litoral quer e precisa sobreviver

Randolfe Rodrigues
Senador da República (Rede/AP). É professor, graduado em história, bacharel em Direito e mestre em políticas públicas

Publicado em: 08/11/2019 03:00 Atualizado em: 08/11/2019 09:41

Os prejuízos decorrentes da contaminação do litoral brasileiro por petróleo irão perdurar por um longo tempo. Isso porque mesmo após a remoção do óleo, as substâncias nele presentes se entranham nos diferentes sedimentos dos locais atingidos, ainda que a gente não note mais a presença física do petróleo nos locais contaminados.
 
Dessa forma, mesmo que peixes ou outros mariscos consumidos por humanos não tenham tido contato com o óleo, eles podem ter se alimentado de outros organismos contaminados, absorvendo substâncias tóxicas com potencial para causar diversos problemas de saúde para quem consumi-los.
 
À contaminação do meio ambiente se soma a contaminação de pessoas que tiveram contato com o óleo. Ela pode se dar com uma caminhada pela areia da praia, banho de mar ou mesmo pela inalação dos vapores do petróleo que atingem o litoral.
 
O monitoramento dos locais atingidos precisará ser feito por décadas para garantir que a população não esteja frequentando áreas com risco de contaminação, mesmo após a retirada de toneladas de petróleo que chegaram às praias.
 
As populações destes locais precisarão ficar atentas aos riscos, além de contornarem os impactos negativos da contaminação, especialmente na indústria da pesca e turismo.
 
O litoral de Pernambuco, por exemplo, tem 187 km de extensão e aproximadamente 30 mil pessoas vivem da pesca artesanal no estado. Até agora, a contaminação atingiu cerca de 70 comunidades pesqueiras responsáveis por colocar mais de 40 mil caranguejos por semana no mercado e outras 10 toneladas de mariscos.
 
Ao todo, são 286 locais atingidos pelo óleo e 14 unidades de conservação na costa brasileira, abarcando 98 municípios em nove estados do Nordeste. Isso nos faz imaginar o tamanho dos prejuízos decorrentes com a contaminação e suas consequências.
Locais atingidos pelo óleo já experimentam uma redução no número de turistas, isso às portas da chegada da alta temporada de verão. Enquanto isso, o governo Bolsonaro segue errante.
 
Foram precisos dois meses até que o governo federal começasse a agir. E, ao fazê-lo, mostrou-se completamente despreparado para lidar com o problema. Prova disso foi não acionar o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo, protocolo sistematizado pelo Ministério do Meio Ambiente para casos dessa natureza.
 
Para completar, declarações sobre a origem da contaminação evidenciam que Bolsonaro não percebe estar diante de um incidente com implicações globais. Os danos ambientais castigam severamente o Brasil e não ficarão restritos à costa brasileira.
 
O Senado Federal criou uma comissão especial para acompanhar o caso. O objetivo é saber se o governo federal está trabalhando para minimizar os problemas, visto que diferentes procedimentos anteriormente elaborados pelo Ministério do Meio Ambiente e outros órgãos de preservação não foram colocados em prática quando da notícia de que o petróleo se dirigia rumo ao litoral brasileiro.
 
Nesta sexta e sábado a comissão visita os estados de Pernambuco e Rio Grande do Norte para conferir o que tem sido feito para solucionar a questão. Na agenda ainda estão previstas reuniões com pesquisadores, autoridades locais e uma coletiva de imprensa ao final da visita para apresentar os resultados da viagem da comissão aos locais contaminados. Estaremos vigilantes e cobrando todo e qualquer tipo de providência para que essa tragédia não tome proporções ainda maiores.

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