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Opinião
Editorial A miséria aumenta

Publicado em: 08/11/2019 03:00 Atualizado em: 08/11/2019 09:40

Em 2014, o Brasil comemorou sua saída do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Menos de 3% dos brasileiros não ingeriam a quantidade adequada de calorias e nutrientes necessária ao organismo. No mesmo ano, os desequilíbrios na economia empurraram o país para uma recessão sem precedentes. Uma das mais dramáticas sequelas foi o número recorde de desemprego: mais de 14 milhões perderam uma vaga no mercado formal.
 
Os danos sociais da crise de 2014 estão longe de ser superados. Hoje, 13,5 milhões vivem na extrema pobreza, com renda mensal inferior a R$ 145,  R$ 4,80 por dia, valor insuficiente para garantir alimentação e suprir outras necessidades básicas. Estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que o número de pobres, pessoas que vivem com menos de R$ 420 mensais,  diminuiu em cerca de 1 milhão de indivíduos. Em contrapartida, o de miseráveis aumentou para 4,5 milhões. Criou-se um país do tamanho da Bélgica de pessoas que vivem menos de R$ 8 por dia.
 
Diante do atual desequilíbrio nas contas públicas, o governo tem foco apenas nas reformas econômicas. A preocupação é eliminar as diferentes causas do deficit fiscal e garantir à União e aos demais entes da Federação meios de investimento e saneamento das dívidas. Mas o crescimento da miséria e a expansão da fome exigem do poder público medidas urgentes. É praticamente impossível garantir ao país desenvolvimento, com tamanha desigualdade social — o Brasil ocupa a nona posição no ranking global, de acordo com a Oxfam.
 
O perfil brasileiro não mudará se preservada a profundidade do fosso que separa os mais ricos dos mais pobres. As reformas formuladas pela equipe do Ministério da Economia e levadas à apreciação do Congresso não têm viés social. Impõe-se que, ao lado das mudanças, sejam implementadas políticas sociais para eliminar os muitos brasis, que nos distanciam do padrão das nações desenvolvidas, nas quais a qualidade de vida dos cidadãos é o que mais importa para o poder público. Coloca-se como essencial resgatar os jovens que vivem na penúria, a fim de que sejam protagonistas no futuro.
 
Em 2018, 10,9 milhões de jovens entre 15 e 29 anos —um contingente superior à população de Portugal — estavam fora da escola e desempregados. Sem transformações sociais (saúde, educação, segurança, saneamento básico), preservaremos a condição de atrasados ante os valores civilizatórios do século 21, tamanha a chaga provocada pela fome, pela miséria, pela exclusão.

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