Diario de Pernambuco
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Opinião
A educação descalça

Paulino Fernandes de Lima
Professor, com Mestrado em Letras (Universidade Federal do Ceará). Pós-graduado em Docência do Ensino Superior e em Estudos Literários e Culturais; Defensor Público

Publicado em: 06/11/2019 03:00 Atualizado em: 06/11/2019 09:21

Mesmo “descontingenciando” verbas, ou suspendendo os cortes (como queira denominar o Ministério da Educação), promovidos nas universidades, o país segue sem um plano para essa área, que é essencial e prioritária ao sólido desenvolvimento de uma nação.

Desde o primeiro semestre deste ano, foi imposta às universidades uma (des)protéica dieta que, longe de trazer algum resultado útil ou eficaz, só contribuiu para a desnutrição do ensino e da pesquisa acadêmica. Anunciou-se durante a campanha para as eleições presidenciais, que seriam invertidos os níveis de investimentos, com mais prioridade para a educação básica do que para a de nível superior. Todavia, já beirando o semestre 2020.1 (na familiarizada linguagem acadêmica), além de não se ter tido nenhum projeto, ou sequer um “plano de aula” traçado para a educação, não se tem notícias de investimento mais denso num ou noutro nível de ensino. Para piorar a situação, com a onda liberal em que surfa sem rumo o País, cogita-se que a educação pública vem a ser atingida com as privatizações. Essa ausência de investimentos na educação põe à deriva não só as universidades, como o ensino fundamental e médio,

O Ministério da Educação anuncia a adesão de municípios ao modelo de educação cívico-militar, sem que sequer seja apresentada a metodologia com que será implementado esse modelo de escola. Apenas com a mudança de nomenclatura não se pode esperar que a educação venha a ganhar qualidade ou avanço. O Governo necessita de um plano, repise-se, que trace de forma clara e definida, os rumos a serem percorridos.

É devido registrar, todavia, sabermos que os cortes de verbas que atingiram (em cheio) as universidades, não foram exclusividade do Governo atual, mas um fenômeno maléfico, que já vinha acontecendo desde 2014. O problema se torna ainda mais preocupante, quando se observa que a ciência e a tecnologia são as áreas mais comprometidas, reduzindo a pesquisa científica, que é a mola-mestra do desenvolvimento acadêmico.

Em termos práticos, com essa asfixia financeira que vem sendo promovida, todo o tecido e os órgãos do sistema educacional ficam comprometidos, e as células do corpo da educação adoecem e vão sendo mortas, sem esperanças de revitalização.

Para se ter uma ideia, a infraestrutura; os laboratórios; a compra de equipamentos; a compra de reagentes para pesquisas biológicas, entre outros objetos essenciais vão sendo atingidos.

Nunca é demais lembrar que o sustentáculo da educação é o tripé acadêmico ENSINO-PESQUISA-EXTENSÃO. Sofrendo esses elementos com imposição rigorosa dessa dieta indesejavelmente implementada, compromete-se todo esse direito social, erigido como direito fundamental, em nível constitucional, que é a educação.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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