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Opinião
Um solo para Cida Pedrosa

Raimundo Carrero
Jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 28/10/2019 03:00 Atualizado em: 28/10/2019 08:54

Isso mesmo, este novo livro de Cida Pedrosa  - Solo para Vialejo-, assim  com V, como se pronuncia nas ruas e nos campos do Sertão, é uma comunhão. Até porque ficção não tem compromisso com a gramática, mas com a Língua do país. Assunto mais do que polêmico, a gerar debates e até agressões, desconfortos e brigas. De minha parte, por exemplo, sofri restrições e acusações torpes porque meu livro de estreia traz uma Tigre no título, e não uma Tigresa, como exigem os puristas. Bobos, sobretudo bobos, para quem a literatura continua sendo o sorriso da sociedade, resplendor de gramatiquices e  gramaticóides, afastados daquilo que fomos, somos e seremos.

A palavra tigresa é muito urbana, sofisticada, por assim dizer nobre, não caberia na boca de um vaqueiro do sertanejo no começo do século 20, quase  século 19, e eu trago para o título aquilo que  é dito no escuro da noite, entre goles de cachaça. Uma fuga pela mata. Aproveito para infomar que a Bagaço está publicando nova edição de A História de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão – assim mesmo, com a língua do povo. Aliás, esta é minha novela mais traduzida, sendo Pantera, em romeno, Tigress, em francês, e não consigo  ler em Búlgaro.

Quero dizer ainda que a palavra usada por Cida funciona muito bem porque ganha um som diferente naquilo que vem a ser o improviso no seu belo livro, marcado por movimentos interiores. Na verdade, é preciso descobrir, em princípio, a que instrumento a poeta se dirige, ao realejo, que Houaiss chama de espécie de órgão portátil movido a manivela, ou ao popular Vialejo, como está grafado, ou à gaita que nós, nordestinos, chamamos de vialejo. Sem esquecer que os sulistas chamam de gaita a uma espécie de safona de oito baixos. Penso que ela se refere mesmo ao vialejo, tipo gaita, que nós conhecemos e usamos.

Mas o que interessa de verdade é a imensa qualidade deste livro que me emociona muito, até porque fui músico na minha pré adolescência no sertão tocando requinta ou clarinete na Banda Filrmônica Paroquial de Salgueiro, sob a regência do maestro Alfredo da Paixão e do grande maestro, ainda tão jovem, aos 19 anos, Moisés da Paixão, magnífico conhecedor de música, que hoje dedica seu tempo a corais, sobretudo no Recife, professor do Conservatório e da Aeronáutica.

Sim, o livro traz uma epopeia que consagra a poesia de Cida, no particular, e o Nordeste, no geral. Seu ponto de partida a Jazz Bande Unão, de Bodocó,  tipo de conjunto musical que virou febre no Sertão pernambucano, no pós guerra, sob ainfluêncida da música norte-americana, com destaque para o blues, o jazz e o fox. Muitas são as variações e os improvisos que enriquece, grandemente, a poesia desta poeta maior que se consagra e se candidata a grandes prêmios nacionais.

Quando investe nas aliterações, por exemplo, Cida insiste na improvisação sem, no entanto, abandonar as variações, parece, em certo sentido, o sax tenor fazendo volteios nas notas de som baixo para, pouco a pouco, buscar notas aflitivas em tom alto que corresponde ao gritos da manhã como fazia Charles Parker. As notas aflitivas dos nordestinos e marchas tristes ou alegres de históricos retirantes. Vale a pena ler Cida. Assim nasce um clássico.

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