Quem canta seus males espanta

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 08/10/2019 03:00 Atualizado em:

A sabedoria popular não erra, o canto sempre foi, desde o início dos tempos, um dos grandes meios de dizer alegrias e tristezas. No Brasil, a palavra cantada nos chegou no bojo das caravelas, a saudade do que se deixara no país de origem, mesclava-se ao desejo de aventura, ao medo do mar, ao amor da mulher, mãe ou noiva que ficara no cais, acenando ao amado, que talvez nunca mais encontraria. No monumental Folklore Pernambucano, obra reeditada em segunda edição pela Cepe em 2004, Pereira da Costa nos entrega, em mais de 700 páginas, essa inesgotável fonte de saber produzida por anônimos, através dos séculos, enriquecida com as vozes de poetas brasileiros. A partir de então, o país encontra um saber, um sentir, retomados pelos nossos, dos menos sofisticados ao mais eruditos. Oliveira de Panelas, Catulo da Paixão Cearense, Noel Rosa, Orestes Barbosa, Luiz Gonzaga unem-se a Vinicius de Moraes e Carlos Pena Filho, Paulinho Vanzolini, Manuel Bandeira, Tom Jobim, para só citar alguns. Em quantos países do mundo encontramos, atualmente, uma tal criatividade, riqueza de inspiração e novidades melódicas? Domingo passado, o público que lotou o auditório da Academia Pernambucana de Letras foi contemplado com um mergulho na tradição e na história do que temos de mais significativo no quesito da arte que o povo canta: Cristina Araújo, ex-educadora, ex-professora, que se aposentou para se dedicar ao canto popular de qualidade, nos presenteou, com o profissionalismo e a simplicidade que a caracterizam. Cantou Maisa, Dolores Duran, Chico Buarque, Vinicius, Caymmi, ao lado de dois artistas de alta qualidade, que acompanham Cristina há mais de dez anos, sempre se renovando, eles próprios grandes intérpretes e criadores, num diálogo de justa interpretação e sensibilidade: Kelson Gomes, ao piano, nos brindou com uma valsa de sua autoria e com o solo de Leão do Norte, de Lenine. E Leonardo Cesar nos comoveu com a interpretação de Invierno Porteño, de Astor Piazzola. Houve a participação especial de Damien Marre. Este francês que nos adotou e vive em Aldeia com a famíla, cantou Que c’est triste Venise, numa interpretação que não desagradaria ao próprio Charles Aznavour, e homenageou um grande tradutor da alma francesa, do país e do amor, Charles Trenet, que pergunta à amada e ao país ocupado pelo inimigo, Que reste-t-il de nos amours? Em duo com Cristina, evocou, ao mesmo tempo, os bilhetes apaixonados e o sino do pequeno povoado de província, nessa canção que todo cidadão francês conhece de cor. E para concluir, um número extra: As rosas não falam, que ninguém pode escutar sem se comover. Como agradecer a Cristina, a Kelson, a Leonardo, a Damien, essa bela pausa domingueira em meio às vicissitudes diárias, organizada por Elyanna Caldas?

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.