O Gilberto que conheci

Moacir Veloso
Advogado

Publicado em: 07/10/2019 03:00 Atualizado em:

Em meados de 1973, estava iniciando minha carreira como estagiário do Doutor Bráulio Lacerda. Contava apenas 25 anos. Certo dia, estávamos no Tribunal do Júri do Recife, funcionando como defensores de um soldado da PMPE. Era o segundo júri do qual participava. Ao olhar para o lado, percebi um jovem gesticulando, acenando para mim, e, aproximando-se, disse: Moacir, sou Gilberto, aquele menino que ia assistir aos ensaios da banda Os Anjos, numa garagem lá na Santos Dumont, quando você era guitarrista. Confesso que não me lembrei dele naquele momento. Então disse-me: estou procurando um escritório para estagiar. Perguntei-lhe a idade; 18 anos. Indaguei-lhe: você está no primeiro ano de direito e já quer estagiar? Quero, logo respondeu. Disse-lhe: então apareça lá no escritório. Agora estou muito nervoso. Às nove horas da manhã do dia seguinte, para minha surpresa, eis que chega Gilberto no escritório. Conversamos, apresentei-o ao Doutor Bráulio e ele passou a frequentar a casa. Em 1974, fui trabalhar em uma empresa privada e Gilberto assumiu meu lugar. O intrépido Gilberto Marques Melo de Lima, com seu talento precoce, revelou-se, rapidamente, uma promessa para o exercício da advocacia criminal em Pernambuco. Passou oitos anos como estagiário e advogado-assistente do Doutor Bráulio. Formou-se em 1977 na Faculdade de Direito do Recife. Em 1983, realizou-se o mais importante Júri da história da Justiça Criminal de Pernambuco. Foram julgados os seis acusados do bárbaro assassinato de Pedro Jorge de Melo e Silva, Procurador da República. E lá estava o corajoso e combativo advogado Gilberto Marques, como assistente da acusação, ao lado do Dr Hélio Maldonado, procurador da República, vindo de Curitiba para funcionar como representante do MPF. Participei dessa histórica sessão do júri, transmitida ao vivo por todo o país, como comentarista de uma emissora de rádio local. O Dr Hélio Maldonado implementou um sóbrio, judicioso e magistral discurso acusatório, tecnicamente irretocável, que impressionou o mundo jurídico nacional. Concluiu sua fala em uma hora e meia e passou o bastão para Gilberto. Com apenas 26 anos, o voluntarioso e afoito Gilberto entrou em cena. Com uma retórica fulgurante, chegou ao paroxismo, quando leu um texto adaptado por ele de uma crônica de Sebastião Vila Nova, levando a plateia ao delírio e às lágrimas. Foi demoradamente aplaudido de pé. Estava selado o destino dos réus que protagonizaram o famigerado Escândalo da Mandioca; dos seis. apenas um foi absolvido. Esse ponto de inflexão, elevou o Dr Gilberto Marques ao patamar de uma das mais expressivas revelações da história da advocacia criminal deste estado. E não foram só os 30 minutos de fama. Gilberto Marques teve uma carreira mais do que brilhante, pautada na honradez, no respeito aos colegas, aos princípios de justiça e à ética. Empedernido defensor dos direitos humanos, jamais abdicou da sua obsessiva sede de justiça para as minorias, causa que abraçou, como profissão de fé. Na manhã do dia 21.09.2019, ao receber a notícia de sua morte, entrei em choque e fui às lágrimas. Em dezembro do ano passado, trabalhamos juntos com o nosso mestre Bráulio Lacerda e seu dileto filho, Bruno Lacerda, no julgamento do médico Cláudio Amaro Gomes, em Jaboatão dos Guararapes. Gilberto nos deixou, mas seu legado nunca será esquecido. Sempre alegre, comunicativo, conquistou uma legião de amigos e admiradores. Fique com Deus, caro Gilberto. Onde você está poderá continuar a sua saga, materializada nos seus sentimentos cristãos e de amor ao próximo. Nós, seus amigos e admiradores que aqui ficamos, no dia que nosso bom Deus determinar, iremos um a um ao seu encontro, para celebrarmos a missão cumprida neste mundo material: a prática da caridade, porque sem ela não há salvação!

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