Diario de Pernambuco
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Opinião
O Estado, a Igreja e os índios

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicado em: 11/10/2019 03:00 Atualizado em: 11/10/2019 09:37

A Constituição praticamente se encerra com o capítulo sobre os índios, e nele adota uma perspectiva nova, diferente das Constituições anteriores. O que antes prevalecia era a ideia da “incorporação dos silvícolas à comunhão nacional”. É o que as disposições constitucionais anteriores buscavam. Na atual, não há uma palavra sequer nesse sentido. O de que se fala é da obrigação de respeitar a cultura própria dos índios, seu modo de ser, “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições”. Decorrerá daí que não quer ela essa incorporação, ou a tem como ilícita e nociva?

Penso que não. De fato, a incorporação, ou a integração entre as duas culturas, a dos índios e a cultura comum brasileira (que não é propriamente “cultura dos brancos”), é processo inevitável, acontecerá necessariamente, mais tempo ou menos tempo, como acontece fatalmente desde que duas sociedades quaisquer, duas culturas, se põem em contacto uma com a outra. O que se pode concluir das disposições da Constituição atual, penso eu, é que ela quer que esse processo (inevitável em si mesmo) aconteça o mais suavemente possível, da forma menos traumática, portanto mais respeitadora da índole e da cultura própria dos silvícolas. Não seja forçado, não haja violência sobre a cultura dos índios. E nisso me parece que o constituinte obrou bem. E como, para respeitar a alteridade (a condição de outro, a cultura específica dos índios), é preciso lhes garantir a terra, base essencial da vida própria dos índios, a Constituição mandou que lhes fossem demarcadas as terras que tradicionalmente ocupam.

Se a posição da sociedade civil e do Estado deve ser essa, traçada pela Constituição, qual deverá ser a atitude da Igreja? Pergunta que é particularmente interessante agora, quando se realiza um Sínodo sobre a Amazônia.

A preocupação central desse Sínodo é, com certeza (afinal, é uma reunião de religiosos...), a evangelização dos índios. A Igreja considera que os índios devem ser, também eles, evangelizados, ou entende que a cultura dos índios é muito rica e deve, também neste ponto, ser integralmente preservada e respeitada? A Igreja ainda acredita que a ordem de seu fundador, que mandou que saíssem por toda a terra e evangelizassem todos os povos, se aplica também aos índios, ou não? A Igreja pensa que os índios também têm alma, também são pessoas, também são homens, chamados, do mesmo modo, para a vida eterna, ou já não pensa isso? A Igreja acha que o cristianismo é realmente universal, valendo para todos os povos e todas as culturas, ou é apenas um elemento específico da cultura branca europeia? Cristo é Deus vivo e verdadeiro também para os índios, ou para eles devem continuar valendo os muitos deuses em que tradicionalmente acreditam, deus do sol, da lua, das águas, etc?

Esta é a pequenina curiosidade com que fico quando vejo ilustres prelados debruçando-se sobre magnas questões como reflorestamento, queimadas, desmatamentos, respeito aos direitos indígenas, etc. Por mais que essas questões sejam (do ponto de vista mais temporal) importantes, eu pensava que a preocupação da Igreja fosse, em primeiro lugar, outra, e gostaria de ver tão ilustres prelados enfrentando essa questão: se devem ou não evangelizar os índios?. Será que pensam que a Igreja deve ser apenas ecumênica, e não tem mais de ser missionária? Que deve apenas compreender e respeitar os outros, e não mais procurar convertê-los. Ainda acreditam em Cristo?

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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