Diario de Pernambuco
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Opinião
O Colégio Osvaldo Cruz

Sylvio Belém
Procurador autárquico aposentado

Publicado em: 31/10/2019 03:00 Atualizado em: 31/10/2019 09:23

Localizado na Rua Dom Bosco, em frente à antiga escola de Química, onde hoje está a sede da Rádio Patrulha, o Colégio Osvaldo Cruz foi um marco da educação recifense. Fundado em 1922 pelo professor Aluizio Araújo, que o dirigiu juntamente com sua esposa, dona Genove, contava com um corpo docente do mais alto nível, onde pontificavam entre outros os professores Amaro Quintas, Moacir de Albuquerque, Paulo Freire, Júlio de Melo, José Lourenço, José Brasileiro, Gilberto Osório, Hoel e Hilton Sette, Lucilo Varejao pai e filho, Newton Maia, Waldemar de Oliveira, Othon Paraíso e Manoel Correia de Andrade.

O Osvaldo Cruz estava muito à frente de seu tempo, sendo pioneiro da educação mista, quando em 1924 aceitou a primeira aluna mulher. Os alunos não eram obrigados a usar fardas e lá estudavam meninos e meninas, moças e rapazes numa convivência saudável numa época em que os outros colégios eram divididos entre masculinos e femininos. No educandário, embora seu diretor fosse católico praticante, conviviam nas nesmas salas em harmonia, alunos de raças e credos diferentes como judeus e árabes, católicos, protestantes e espíritas.

O Osvaldo Cruz tinha seu próprio hino composto em parceria por Oswaldo Brandão, letra, e o maestro Piccolino Fischer a música e abrigou durante toda sua existência várias gerações de pernambucanos e nordestinos, preparando-os para a vida.

Entre seus milhares de alunos podemos lembrar, mesmo correndo o risco de cometer o pecado da omissão, alguns que se destacaram nos campos da  política, artes e ciência, como Ariano Suassuna, Armando Monteiro Filho, Francisco Brennand, Jomar Muniz, José Raphael de Menezes, Lourival Vilanova, Reinaldo de Oliveira, Marco Aurélio de Alcântara, Cussy de Almeida, Demócrito de Souza filho, Fernando da Cruz Gouvêa, Egídio Ferreira Lima, Germano Haiut, Meraldo Zisman, Paulo Loureiro, Salomão Kelner, Teotônio Vilela, Boris Trindade, José Mucio Monteiro, Murilo Costa Rêgo, José Costa Porto e Guilherme Robalinho.

O professor Aluizio Araújo nasceu em Timbaúba em 29 de dezembro de 1897 e faleceu em 1º de novembro de 1979 no Recife.

Sobre ele assim se expressou o o mestre da língua portuguesa José Lourenço de Lima: “Aluízio Araújo vivia no Osvaldo Cruz, em regime não de tempo, mas de vida integral. De devoção exclusiva, o seu colégio era sua vida, bipartida com a admirável companheira que Deus lhe deu: dona Genove. Tão unidos, tão solidários, tão um para o outro que não teríamos jamais condições de imaginar um sem o outro. Eram consortes, participando da mesma sorte, dos mesmos ideais, das mesmas lutas, que já não eram deles, eram do estado, da região, do Brasil: o Colégio Osvaldo Cruz.”

Fui, juntamente com meus irmãos Cláudio e Marcílio, aluno do Osvaldo Cruz e dentre várias boas lembranças guardo na memória muito fortemente aquela manhã do dia 24 de agosto de 1954, quando as aulas iam começar e o sino tocou convocando todos os alunos ao pátio onde ouvimos dr. Aluizio nos comunicar com muita emoção: “As aulas estão suspensas porque o presidente Getúlio Vargas acaba de se suicidar.”

Nosso colégio encerrou suas atividades 62 anos atrás, mais precisamente no dia 29 de maio de 1957.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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