Diario de Pernambuco
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Opinião
Em busca da raiz primitiva

Plínio Palhano
Artista plástico

Publicado em: 09/10/2019 03:00 Atualizado em: 09/10/2019 09:25

Paul Gauguin, no século 19, já se queixava do burburinho da civilização, e isso o fez procurar as terras consideradas ainda primitivas ou que lembrassem algo diferente das impressões urbanas agitadas. Em Pont-Aven, na Bretanha, se uniu a um grupo de artistas considerado como a Escola de Pont-Aven, no qual estabelece as bases para o movimento que encabeçou denominado Les Nabis (do árabe, “os profetas”). Posteriormente, foi para o sul da França, Arles, para experiências ao ar livre, com o sol a pino, acompanhado do intenso Van Gogh, que lhe deixou marcas fortes e a admiração como criador. Segue, ainda, para Martinica, em 1887, em busca de algo renovador, além da cultura europeia e que fosse semente das suas buscas de um mundo idealizado, talvez um paraíso perdido. Lembremo-nos de que o artista em sua juventude foi marinheiro por seis anos: dos 17 aos 23, esteve no convívio com o horizonte imenso dos oceanos até 1871 e, como Édouard Manet anos antes, desembarcou no Rio de Janeiro.

Mas foi no Taiti onde ele estabeleceu um maior diálogo espiritual e material com uma cultura genuinamente de raiz primitiva. Incorporou tão profundamente aquela gente e seu universo que se tornou aos poucos um deles. Nos mistérios, nas crenças, na filosofia... Uma das obras, como muitas outras, que pode representar a penetração na mitologia taitiana é a Manao Tupapau (“O Espírito dos Mortos Vela”, 1892), baseada na lenda do espírito mau que vivia nas selvas e se utilizava das noites para incomodar os nativos. Igualmente com sincretismo, na La Orana Maria (“Nós te Saudamos, Maria”, 1892) representava Maria como uma Eva no paraíso, caracterizada como uma “vahine”, com o Cristo já nascido — pois se trata da anunciação do anjo sobre o nascimento do Cristo —, de pele escura nativa, o anjo entre as folhagens, toda a cena numa mata com vegetação tropical. O catolicismo local não aprovou a pintura por achar que as representações não eram compatíveis com as tradições da Igreja.

Logo após a primeira viagem ao Taiti, propõe uma exposição, em Paris, ao marchand Durand-Ruel. A inauguração foi no dia nove de novembro de 1893, com a participação de Charles Morice, dando o suporte para a divulgação na imprensa. Quarenta e duas obras são expostas, com as molduras da preferência de Gauguin, modernas — brancas, azuis —, para as diferenciar das do Salão Oficial. Um objetivo ele conseguiu, senão o sucesso almejado: uma polêmica que mexeu com o mundo artístico e intelectual parisiense. Realmente, Gauguin já era uma presença impossível de ignorar, com uma fama conquistada a duras penas. Mas, com amargura, não se sentia compreendido pelos pintores dos quais gostaria de ouvir comentários favoráveis. A maioria das críticas foi em cima do exotismo e sexo que diziam ter ele explorado da cultura maori. As obras mais expressivas, entre outras como Vahine no te Tiare (“Mulher com Flor”, 1892), primeiro quadro realizado no Taiti com modelo nativo; Homem com machado (1891); Hina Tefatu (“A Deusa da Lua e o Gênio da Terra”; 1893); Ta Matate (“O Mercado”, 1892), não foram suficientes para convencer o público, os críticos e os artistas, todos divididos quanto ao julgamento. Mas ele pretendia continuar a gigantesca obra com o pouco tempo que lhe restava, pois, com a saúde já dando sinais de abalo, por causa dos sintomas de sífilis.

Gauguin, um artista seminal, encontrou, nas ilhas longínquas da Polinésia Francesa, a visão do Criador, que foi despertada com lutas intermináveis e  incompreensões que vinham de um mundo civilizado. Dizia, em Paris, antes de partir definitivamente, que, entre “os selvagens daqui e os de lá”, preferia os que estavam no Taiti ou nas Marquesas. Libertou a história da sua própria pintura e, consequentemente, a arte universal, ampliando, a cada passo — num processo crescente de beleza, de luz, de cor, de forma, de conceitos —, um encontro feliz com o que ele chamava de “mitologia maori”, que recriou com seu olhar agudo. Foi lá onde realizou suas obras-primas, amou suas “noivas” meninas — Teha’amana e Pau’ura — e viveu dolorosamente em luminosidade tropical. O Cubismo, o Fauvismo, o Expressionismo, toda a geração posterior deve à nascente Gauguin, como numa trindade com Paul Cézanne e Van Gogh, que foram os motores a influenciar o Modernismo na arte do século 20.

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