Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Opinião
Considerações sobre a sopa

Vladimir Souza Carvalho
Presidente do TRF5

Publicado em: 23/10/2019 03:00 Atualizado em: 23/10/2019 09:13

Nunca ouvi ninguém dizer que fazer determinado serviço fosse feijoada, pirão ou buchada. Se alguém assim o faz,  não é do meu conhecimento. A invocação que se opera é com a sopa: isso é sopa, no que todos hão de concordar comigo. A sopa carrega suas vantagens, até pelo nome com que foi batizada.

De minha parte, só conheci a sopa, pelo que minha memória registra, nos idos de 1958. Vovó Brasília foi passar uns dias em Aracaju, e, na volta, trouxe a receita da sopa de feijão, que mamãe passou a seguir. Se tinha antes, não me recordo. A sopa de feijão contava com o caldo do feijão, daí ser escura, e com espaguete, além de ingredientes naturais, e, nessa área, me calo, pela pouca intimidade que tenho nesses negócios de cozinha. O que sei é que a partir daí que lá em casa, à noite, no jantar, aqui e ali, apareceu a sopa de feijão. Depois, muito depois, é que outros tipos de sopa ingressaram no nosso modesto cardápio.

Em Aracaju, no curso de Direito, me deparei com a sopa Mão de Vaca, a carregar ingredientes que não sei apontar. A mão da vaca é que não vinha no prato, mesmo porque vaca não tem mão, não vamos esquecer o detalhe. Era uma sopa forte, dessas que a gente suava quando a digeria.

Muito tempo após, em João Pessoa, conheci a sopa Cabeça de Galo. Em princípio, fiquei a mexer a colher, para ver se, efetivamente, tinha cabeça de galo dentro da panela. Me asseguraram que só no nome era que a cabeça de galo aparecia, de modo que eu podia ficar tranquilo. Na imensa panela, o que muito vi foi ovo cozido, sem a casca. A sopa Cabeça de Galo me fez lembrar da sopa Mão de Vaca.

Em Lisboa, fui apresentado a uma sopa cujo título me atraiu: Sopa de Pedra (ensopado). Anotei os seus componentes: feijão catarino, caldo de cozedura do feijão, carne de porco, chouriço, farinheira, morcela, massa conquilete, tomate triturado, caldo de carne, cravinho, manjerona, piri-piri, cominhos, pimentão doce, louro, azeite e sal. E, aliás, foi fácil registrá-los, porque estão inseridos em um prato, a título de propaganda. Posso assegurar que é gostosa, mas, da minha tropa, o único que correu o risco fui eu, a repetir a dosagem no dia seguinte. O dado mais importante: não continha nenhuma pedra.   

Veio, então, a lembrança de uma soparia em Ouricuri. Empresa só com uma porta, algumas mesas, balcão com a panela de sopa, e, eu a perguntar quais os tipos de sopa que se tinha. Só uma, de feijão. Bom, não perdi a elegância nem a viagem, afirmando: é da que eu queria mesmo. E lá fui a me deliciar.

Sobre Vidas: Nivia e o empoderamento de mulheres no Coque
DP Auto na Tóquio Motor Show - Tudo sobre a Nissan
Sérum, pele natural, sombras coloridas e blush cremoso
Lula: sou um homem melhor do que aquele que entrou na cadeia

Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco