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Opinião
Editorial A volta da sífilis

Publicado em: 30/10/2019 03:00 Atualizado em: 30/10/2019 09:42

Grande temor de reis e rainhas em um passado não muito distante, pois significava loucura seguida de morte, a sífilis volta a assombrar o mundo, e o Brasil não está imune a essa nova epidemia. Transmitida, principalmente, pela falta do uso de preservativo nas relações sexuais, a enfermidade chegou a ser controlada, globalmente, depois da disseminação do uso da penicilina a partir da Segunda Guerra Mundial. Contudo, tornou-se, novamente, grande preocupação da comunidade médica, pois é silenciosa, altamente contagiosa e pode provocar danos graves à saúde.

O retorno da doença a níveis alarmantes se dá, sobretudo, pela mudança de cultura, com as pessoas não se preocupando mais em se precaver contra o contágio durante os contatos íntimos. Fenômeno detectado, notadamente, entre os mais jovens, que não viveram o período de devastação do HIV, vírus da Aids. Nas décadas posteriores ao surgimento do primeiro caso da enfermidade, no início dos anos 1980, era comum todos se protegerem, mas, com a descoberta de medicamentos eficazes para o controle da doença, as pessoas negligenciaram e começaram a se expor ao perigo do contágio.

Especialistas destacam que a atual explosão da sífilis se dá por causa dessa falta de proteção pessoal. O infectologista Estevão Urbano, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, assinala que os tratamentos do HIV e das hepatites evoluem cada vez mais, permitindo uma vida saudável aos enfermos, embora não proporcionem a cura definitiva. Mas, diante do perigo que representavam até poucos anos atrás, os medicamentos dão uma certa tranquilidade aos infectados, e este comportamento facilita a contração de uma doença. “De certa forma, o tiro sai pela culatra”, diz.

Outra questão é a falta de diálogo franco e aberto sobre sexo entre pais e filhos, o que pode reveter o comportamento dos jovens em dispensar a proteção durante o ato sexual. Hoje, o número de parceiros e parceiras é maior, e os que não se encontram nos grupos de risco também devem fazer os exames periódicos. Além da relação sexual, a doença é transmitida por transfusão de sangue e compartilhamento de agulhas e seringas infectadas para uso de drogas. Mas a forma de contágio que mais preocupa as autoridades de saúde é a congênita, transmitida de mães para filhos, pois pode trazer consequências sérias para os bebês.

A escalada da sífilis atinge níveis epidêmicos em alguns estados. Exames gratuitos são oferecidos pelas unidades básicas de saúde de todo o país, mas poucos se dispõem a fazê-los. As secretarias de Saúde vêm investindo em campanhas de esclarecimento e prevenção sobre o tema e na intensificação dos testes nos postos de saúde. A realidade é que é bastante baixa a oferta de testes na rotina médica das pessoas, bem como a adesão da população ao uso do preservativo. Assim, as autoridades de saúde não podem medir esforços para controlar e, se possível, debelar doença que tantos males já causou à humanidade.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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