Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Opinião
A árvore dos frutos selvagens

José Carlos L. Poroca
Executivo do segmento shopping centers

Publicado em: 29/10/2019 03:00 Atualizado em: 29/10/2019 09:03

Passados mais de anos, ainda há questionamentos sobre quem foi o inventor do cinema. Auguste e Louis Lumière levam vantagem, inclusive sobre o americano Thomas Edison. Houve outros, com técnicas parecidas, lembrados quando se mergulha no assunto. Os irmãos franceses foram mais produtivos, mais versáteis. Por conta desse pessoal, surgiram, mais na frente, centenas de figuras nessa arte: as primeiras, na fase do cinema mudo; outras, no cinema falado, em P&B; e mais outras, a seguir, com telas de vários tipos e tamanhos; sons, cores e tecnologias das mais variadas. Nas próximas cenas, veremos personagens da tela conversando com a plateia, como aconteceu no imaginário da personagem de Mia Farrow, no A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen. Não foi o primeiro: há outros - antes e depois.

Graças a esse pessoal, foi possível a Nuri Bilge Geylan realizar A Árvore dos Frutos Selvagens, que passou de fininho pelo Brasil. Excepcional filme do mesmo autor de Era uma vez na Anatólia e Três Macacos. No A Árvore..., o diretor mergulha nos diálogos, apresenta roteiro e fotografia impecáveis numa história que se passa na zona rural do seu país (Turquia). É um daqueles filmes que deve se ver visto mais de uma vez – foi o meu caso –, para tentar entender os “esconderijos” de cada etapa do enredo, ou, por exemplo, para tentar compreender melhor o diálogo entre um escritor famoso e um jovem que deseja publicar o primeiro livro e saber a fórmula do sucesso obtido pelo seu interlocutor.

Como de hábito, ao ver uma obra desse tamanho, fiquei imaginando como seria a história, no mundo real, se ela se passasse no Brasil. Tirando a língua e o clima, responderia: quase igual. O desemprego, a falta de oportunidade para os jovens, o dinheiro curto – têm a mesma cara, lá e cá. Se alguém achar que há exagero, faça a experiência de “passar férias” numa cidadezinha do interior nordestino, de qualquer estado. Verá que aquele canto vai estar ligado pela tecnologia ao mundo exterior, mas faltam oportunidades, a água é escassa, emprego idem. Diria que é o mesmo cenário de 60 anos atrás, acrescido da tevê em cores, internet, streaming etc. Até os coronéis de antigamente estão a postos, com outros nomes ou títulos.

Nem precisa ir muito longe: a pouco mais de 100 Km de capitais como Salvador ou Recife, é possível ver, em cores, histórias muito parecidas com as de Sinan, o personagem do filme, e de Idris, o pai, professor primário e contumaz jogador, que usa o que tem e o que não tem, na esperança de aparecer a grana da sorte, que dê – a si e aos seus – uma vida melhor. Miserere Nobis. 

Sobre Vidas: Nivia e o empoderamento de mulheres no Coque
DP Auto na Tóquio Motor Show - Tudo sobre a Nissan
Sérum, pele natural, sombras coloridas e blush cremoso
Lula: sou um homem melhor do que aquele que entrou na cadeia

Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco