Diario de Pernambuco
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Opinião
1961: a faculdade ocupada

Sylvio Belém
Procurador autárquico aposentado

Publicado em: 16/10/2019 03:00 Atualizado em: 16/10/2019 08:34

Transcorria o ano de 1961 no seu primeiro semestre e o Brasil vivia o início do governo Jânio Quadros, pontilhado por atos extravagantes do presidente, tais como proibição de briga de galos e de uso de biquíni em concursos de miss e adoção de fardamentos para os servidores públicos. De repente, surge vinda de Recife a notícia de que os estudantes da Faculdade de Direito haviam decretado greve e ocupado o prédio da tradicional faculdade.

Tudo começou quando um grupo de alunos convidou a mãe de Che Guevara, a médica Célia, para realizar uma palestra na denominada Casa de Tobias. Solicitados, o salão nobre e a sala de conferências foram negados pelo diretor professor Soriano Neto. Decidiram então os estudantes levar a palestra para a sala do primeiro ano quando, para surpresa de todos, por ordem do diretor, a luz foi desligada. No entanto, longe de desistir, os alunos providenciaram velas e Célia Guevara falou sob suas luzes.

No dia seguinte, o presidente do diretório acadêmico, Antonio Carneiro Leão, dirigiu-se a sala do diretor acompanhado de vários colegas buscando explicações para tão arbitrária atitude da direção. Soriano Neto, baixinho e franzino, reagiu portando uma arma na cintura e afirmando que nada tinha a explicar e que sua atitude não podia ser contestada. Diante disto, foi decretada greve e na mesma noite o prédio ocupado. O acontecimento teve forte repercussão nacional decidindo Jânio enviar ao Recife seu ministro da educação, Brígido Tinoco, para tratar do problema. Tão logo foi confirmada a vinda do ministro, os estudantes, em grande número se dirigiram ao aeroporto, onde recepcionaram a autoridade um tanto quanto assustada, que afirmou: “Vamos logo resolver o problema”, seguido pela explosão de contentamento dos grevistas, que já de madrugada fizeram um estrondoso buzinaço na volta pela avenida Boa Viagem. Todavia, a coisa não era tão simples assim, e Brígido Tinoco depois de se comunicar pelo rádio da sala do comandante do Quarto Exército, general Osvaldo de Araújo Mota, lívido após ouvir os gritos do presidente, afirmou que o primeiro mandatário decidira que o governo somente negociaria com os grevistas depois que, no seu dizer “o próprio público fosse desocupado”.

As horas seguintes foram de apreensão. desde que esperava-se que a qualquer momento as tropas do Exército invadissem o prédio e retirassem os estudantes.

A invasão ocorreu na madrugada seguinte e foi um verdadeiro espetáculo circense, com soldados camuflados com galhos de árvores rastejando pelos jardins. Reunidos em assembleia os grevistas decidiram resistir e sentaram-se no chão, sendo logo após carregados e retirados sem violência, voltando o “próprio público” para o controle governamental.

A greve continuou, somente sendo encerrada dias mais tarde com o afastamento do diretor arbitrário, constituindo-se, na verdade, em mais uma vitória dos estudantes da Faculdade de Direito do Recife, cujo passado já tinha sido marcado por outros episódios em defesa de seus direitos e da democracia.

Na época acompanhei esses acontecimentos sob dois ângulos, o oficial na condição de oficial da gabinete do governador Cid Sampaio que agiu como mediador junto ao governo federal e o estudantil como integrante do diretório acadêmico.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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