Marilda Vasconcelos de Oliveira e seu alerta

Bartyra Soares
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 25/09/2019 03:00 Atualizado em: 25/09/2019 09:30

Há algum tempo, premiado em Portugal, o ensaio A Grande Casa de Nossas Casas, da escritora e poeta Marilda Vasconcelos de Oliveira, com capa de Gil Vicente, finalmente é publicado. Já não era sem tempo.

Impossível ter o livro nas mãos e não nos determos para uma análise profunda do que vem acontecendo ao nosso planeta. Essa nossa grande casa, abrigo da humanidade, todos fazendo parte da mesma biosfera está ameaçada.

Marilda, com sua competência para esclarecer a que ponto estamos chegando, comprova-nos que dentro de algum tempo, se não houver o cumprimento de acordos internacionais para a preservação ambiental da Terra com seus biomas, teremos um fim sem vencedores nem vencidos. Todos seremos arremessados ao caos do nada ser.

Com uma linguagem simples, acessível, Marilda discorre sobre as consequências do que nos pode acontecer. Em 2007, alerta ela, um relatório das Nações Unidas já afirmava que nove dos dez piores desastres naturais têm origem nos distúrbios climáticos como o aumento do efeito estufa. E, acrescente-se, igualmente como o atear fogo às regiões arborizadas. Não se faz necessário sair do Brasil, a Amazônia é um estarrecedor exemplo disso.

O alerta vem de longe, mas quando será levado verdadeiramente a sério? Em 1855, uma carta foi enviada ao presidente Franklin Pierce, dos Estados Unidos, pelo índio, cacique da tribo Suwamish, dos territórios do noroeste, que agora formam o Estado de Washington. Carta enviada mediante a intenção do “cacique branco” ao propor a compra das terras indígenas.

O pele-vermelha, que se autodenominou de selvagem, respondeu com uma sabedoria, talvez jamais imaginada ou escrita pelo homem, dito civilizado, nessas mesmas circunstâncias. Escreveu o índio: “O homem não tece a teia da vida. Nela ele é apenas um fio. Tudo que faça à vida o fará a si mesmo. O que ocorre à terra ocorrerá aos filhos da terra. Todas as coisas estão relacionadas como o sangue que une uma família”.

Se parássemos aqui, tudo ou quase tudo tinha sido dito. Mas, Marilda, com sua capacidade de enxergar além dos horizontes, teve o entendimento de que ainda havia muito a dizer. A responsabilidade lhe pesou sobre os ombros, lhe esmagou a esperança de saber que não virá um mundo melhor para os filhos e netos das gerações futuras , caso não ocorra o grande “basta” aos absurdos praticados.

Por isso, vai além ao indicar algumas propostas: evitar usar (ou utilizar o mínimo) sacolas plásticas, economizar energia elétrica, água, gasolina. Usar transportes coletivos ou bicicletas. Fazer uso de biocombustíveis, energia solar, tal como economizar bens de consumo: roupas, calçados e objetos supérfluos. Unir-se a entidades contra o abate intensivo e desregrado de animais; ajudar a recuperar áreas verdes e recobrir a parte superior externa de casas e prédios com vegetação rasteira, irrigada por tecnologia própria. Reutilizar água para a limpeza de pisos e realizar outras formas de limpeza que dispensem água potável. Participar de grupos ou iniciativas contra a destruição das florestas, pressionando posicionamentos para iniciativas favoráveis das três esferas governamentais.

Afinal, estamos todos interligados. É de um antigo texto a afirmação de que somos “filhos do Universo, irmãos das estrelas e árvores”. Que não sejamos os responsáveis pelo rompimento da cadeia que a todos irmana, os ensandecidos causadores do fim da “A Grande Casa de Nossas Casas”.

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