Editorial Alento no mercado de trabalho

Publicado em: 28/09/2019 03:00 Atualizado em: 29/09/2019 18:55

O desemprego é a face mais cruel da crise econômica que castiga o país desde 2014. Mais de 12 milhões de brasileiros sem colocação que, somados aos subocupados e desalentados, ultrapassam 28 milhões de pessoas. O número é tão alto que atinge a abstração da estatística. Em razão da dificuldade de avaliar concretamente a dimensão da tragédia, recorre-se à imparcialidade fria das cifras. Mas o drama humano permanece.

É alentadora, pois, a notícia da criação de 121.387 postos de trabalho em agosto. Acrescentem-se dois fatos auspiciosos. Um: trata-se do melhor resultado para o mesmo mês desde 2013, quando se iniciou a perda de velocidade do PIB e se abriu espaço para a maior recessão nacional. O outro: desde julho, há, portanto, cinco meses, cresce o número de vagas no mercado formal — com carteira assinada, garantias da legislação trabalhista, remuneração mais alta e condições de trabalho dignas.

Em 2019, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registrou a geração de 593.467 vagas. Comparado com o mesmo período do ano passado — 568.551 postos —, houve acréscimo de 24.916 ocupações. Chama a atenção o ramo de serviços, que abriu 61.730 postos — com destaque para os segmentos de educação e de administração de imóveis. Também o do comércio sobressaiu, com 23.626 vagas sobretudo no varejo.

O avanço dos serviços e do comércio acena para uma recuperação alentadora. Três indicadores a alicerçam: o incremento na oferta de crédito, a elevação da confiança das famílias e a volta do consumidor às compras. Dos oito ramos em que se divide o mercado de trabalho, só dois tiveram queda, mas ambos não preocupam. Um deles, o de serviços industriais de utilidade pública, perdeu 77 vagas, oscilação natural no setor. O outro, o da agropecuária, somou 3.341 postos em razão de fatores sazonais.

A lenta mas contínua melhora na absorção da mão de obra formal sinaliza, como disse o governo, a recuperação gradativa do emprego e do crescimento econômico. Duas condições favorecem a retomada. De um lado, os sucessivos cortes da taxa básica de juros que chegou a 5,5% com sinalização para nova tesourada até o fim do ano. De outro, o controle da inflação. Analistas projetam inflação de 3,44% para 2019, inferior à meta de 4,5% fixada pelo Conselho Monetário Nacional (Copom).

São números alentadores mas ainda frágeis. Para a melhora sustentável, impõe-se restabelecer a confiança na solvência do Estado. Ela passa necessariamente pela reforma da Previdência e outras mudanças. Entre elas, a racionalidade na cobrança de impostos, a redução da burocracia, a segurança jurídica. Ambiente mais amigável atrai investimentos substantivos, essenciais para a aceleração do crescimento.  Governo e Congresso devem atuar efetivamente para levar avante o ajuste amplo da economia. Só assim o voo de galinha dará vez ao voo de águia.

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