Ninguém se espante

Ricardo Leitão
Presidente da CEPE

Publicado em: 03/08/2019 03:00 Atualizado em: 05/08/2019 10:21

Um dia, quando era um obscuro parlamentar, Jair Messias Bolsonaro tomou o microfone no plenário da Câmara dos Deputados para elogiar o coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, notório torturador na ditadura militar. Até aqui impune, não recebeu sequer uma advertência formal de seus nobres pares.

Hoje, Presidente da República, Bolsonaro mais uma vez faz sangrar as profundas feridas do passado. O pernambucano Fernando Santa Cruz, militante da Ação Popular, organização armada de resistência à ditadura, foi morto por seus companheiros, acusa ele, e não pela repressão. E os documentos das Forças Armadas que dizem o contrário “são uma balela”, conclui.

Sua Excelência terá de provar o que afirma ao Supremo Tribunal Federal (STF), acionado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Preside a instituição Felipe Santa Cruz, filho de Fernando, preso por agentes da ditadura e desaparecido no Rio de Janeiro, em 1974, aos 26 anos.

Interpelado por ministro do STF, ganhará a oportunidade de contestar as “balelas” que atestam ter sido o olindense Fernando Santa Cruz torturado e assassinado no DOI-Codi do Rio de Janeiro e seu corpo transformado em cinzas no forno de uma usina de açúcar, no mesmo estado. Terá o capitão-presidente a coragem de anunciar ao país quem torturou, assassinou e incinerou Fernando Santa Cruz? Ele irá considerar estes carrascos “heróis da Pátria”, tanto quanto o coronel Brilhante Ulstra?

Ninguém se espante: Bolsonaro é capaz disso. Aos sete meses de um governo errático; sem planos estruturais de longo prazo; com 12,8 milhões de desempregados toureando a fome e taxas medíocres de crescimento, Sua Excelência dedica-se à rotina de dar tiro no pé, produzindo uma má notícia por dia. Como faz agora, atiçando o debate sobre o assassinato de Fernando Santa Cruz.

Até onde isso vai levar um Brasil perplexo e desesperançado é impossível imaginar. Bolsonaro chegou apenas aos sete meses na Presidência. Com toda certeza, nenhum antecessor seu teve tanta desaprovação da população quanto ele, nem provocou tanta balbúrdia, em pouco mais de um semestre.

As perspectivas para os próximos três anos e cinco meses que restam para o fim de seu mandato são deprimentes. Líder da extrema-direita, defensor de torturadores, condenado por ofender mulheres, refém de uma logorréa beligerante, no tempo que lhe sobra Jair Messias Bolsonaro poderia ao menos ser capaz de não tratar com desprezo e crueldade a família de Fernando. Sua mãe, Elzita, morreu com 105 anos sem nunca deixar uma pergunta calar: “Onde está o meu filho?”.

O capitão-presidente diz saber. Dirá? Talvez seja exigir muito de um homem despreparado para exercer o Poder e que – desconfiam psiquiatras – apresenta traços de sociopatia. Mas talvez ele diga alguma coisa, depois de consulta urgente ao astrólogo Olavo de Carvalho.

Sim ou não? Ninguém se espante. Tudo faz parte do pântano profundo em que fomos mergulhados desde os idos de janeiro.

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