Editorial Matanças em série

Publicado em: 07/08/2019 03:00 Atualizado em: 07/08/2019 06:42

O debate sobre o controle da venda de armas de fogo voltou à tona com os seguidos massacres ocorridos nos Estados Unidos, recentemente. Até o presidente Donald Trump, conhecido defensor de uma população armada — no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro também defende a tese —, começou a falar na necessidade de se controlar a comercialização de armas de fogo. Mesmo insistindo em que as recentes matanças em seu país são motivadas, principalmente, pela influência dos jogos eletrônicos na juventude e por questões de doenças mentais dos assassinos em série, o que é desmentido por diversos estudos científicos.

Trump não tem argumentos sólidos contra pesquisas que desmentem a crença de que a violência da sociedade dos EUA é provocada por divisões raciais, como muitos apontam — seus críticos afirmam que sua postura racista também contribui para a escalada dos massacres —, pelos jogos eletrônicos ou porque seus cidadãos não teriam a devida assistência em saúde mental. O fenômeno só pode ser explicado pelo astronômico número de armas de fogo nas mãos da população por causa da absoluta falta de controle da venda de armamentos.

Os norte-americanos representam apenas 4,4% dos habitantes do planeta e, no entanto, têm 42% das armas existentes. Mais: somente 4% das mortes por armas de fogo podem ser atribuídas a distúrbios mentais nos Estados Unidos. Também existem estudos de que os jogos eletrônicos em nada contribuem para estimular as matanças em massa que acontecem no país do hemisfério norte com frequência cada vez mais acentuada.

Quanto à denúncia de críticos de Trump de que ele e seus aliados incentivam o racismo, que serviria de estímulo às matanças em massa, o presidente foi contundente. Contrariando seu discurso habitual, condenou o racismo representado pelos supremacistas brancos — o autor do ataque a um supermercado em El Paso, no Texas, com saldo de 20 mortos e 26 feridos, sábado passado, postou mensagens de cunho racista nas redes sociais antes do ataque.

Nos últimos dias, foram quatro massacres nos EUA. Antes do assassinato em massa na cidade texana, ocorreram outros dois na semana passada: um em que duas pessoas morreram e um policial foi ferido e outro em que três pessoas perderam a vida, inclusive uma criança de 6 anos, quando um jovem invadiu um festival gastronômico na Califórnia e abriu fogo contra quem estava no local. O quarto foi no domingo, quando os americanos ainda se recuperavam do massacre em El Paso, cuja maioria dos moradores é hispânica. Um homem armado de fuzil abriu fogo em uma área de lazer, e matou nove pessoas e feriu 27 em menos de um minuto.

Diante das muitas vozes condenando as matanças, Trump, talvez mirando as próximas eleições presidenciais, em 2020, inicialmente fez coro nas críticas ao racismo. Pediu para seus compatriotas condenarem os supremacistas brancos e sugeriu pena de morte para “crimes de ódio”. Depois, propôs que democratas e republicanos se unam para a aprovação de leis mais rígidas para o controle de armas de fogo.

Esqueceu-se de mencionar que legislação nesse sentido já foi aprovada na Câmara dos Deputados, controlada pelo oposicionista Partido Democrata, e que está esquecida em uma gaveta do Senado, cuja maioria é do situacionista Partido Republicano. Se realmente quiser colaborar para o fim dos massacres em seu país, deveria adotar retórica mais conciliadora com a questão racial e realmente apostar no desarmamento dos seus cidadãos.

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