Clara e outras mulheres

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 14/08/2019 03:00 Atualizado em: 14/08/2019 08:58

Na semana passada, comemorando aniversário da lei Maria da Penha, muitas homenagens à data, eventos, palestras, se realizaram Brasil afora, por organismos diversos. Nada mais justo. Entretanto, os meios de comunicação, jornais, televisão, rádios, não cessam de divulgar dados alarmantes de agressões de todo tipo contra mulheres, cometidas sobretudo por companheiros outrora amantes, amados, de repente transformados em monstros agressores. E a gente se pergunta, o que está acontecendo com os homens brasileiros? Mas não era disso que queria falar hoje e sim de opressões mais discretas, embora constantes, aquelas que colocam a gente feminina em segundo lugar, ou em compasso de espera, quando vocações artísticas surgiam-surgem, se as moças, de repente, descobriam em si, talentos, desejos de acrescentar uma pedra, à construção do mundo. A história está cheia delas e qualquer biografia de alguma mulher que se sobressaiu nesse sentido, na música, na escultura, na pintura, na literatura, através dos tempos. revela a luta de uma vida inteira para se fazer um lugar nesses espaços de criação, ocupados por homens. E nem só. O apagamento pode se fazer de outro modo, como o demonstrou   Nicole Loraux, no livro Maneiras trágicas de matar uma mulher, na Grécia, onde também a poetisa Safo, teve sua obra apagada, riscada dos cânones. E nem precisa ir tão longe, conhecemos nomes de mulheres que conseguiram se fazer ouvir, no Renascimento, e em épocas posteriores, Heloisa, Louise Labé Marquerite de Navarre, Maria Teresa da Silva e Orta, frequentemente ocultando-se sob pseudônimos masculinos, como as irmãs Bronte. Ou produzindo obras geniais, mas sufocadas por companheiros também artistas, como Camille Claudel. “Não existe Mozart mulher”, dizia-se. Em Um teto todo seu, Virginia Woolf aborda a questão, pedindo ao leitor que imagine o que teria acontecido a uma irmã de Shakespeare também vocacionada para a criação. Leiam. Mas toda essa minha conversa lembrando fatos conhecidos, tem apenas a intenção de assinalar a homenagem feita, na semana passada, a Clara Schumann, uma mulher de grande talento, que sacrificou por muitos anos sua vocação de compositora e intérprete, na ajuda ao marido também compositor, levando a cabo a vida familiar, cuidando dos filhos e até da organização financeira, criando para Robert Schumann, sujeito a crises de depressão e alcoolismo,  um espaço propício à criação, que ela própria só conseguiu para si, após da morte do grande artista. Sábado passado, quando da extraordinária apresentação do barítono pernambucano Michelangelo Cavalcanti,  renomado internacionalmente como intérprete de grandes óperas, em tarde de música de altíssimo nível como tem acontecido na Academia Pernambucana de Letras,  o pianista Fernando Muller, que o acompanha nesses eventos musicais, prestou uma homenagem a Clara Schumann, executando ao piano, duas composições de Clara, que nos fez a todos sentir, através da maestria da interpretação, a delicadeza e a sutileza de uma voz de mulher que, por alguns minutos se tornava presente, quase dois séculos depois de sua morte. Obrigada Michelangelo, obrigada Fernando.

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