Diario de Pernambuco
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Opinião
A volta das boas polêmicas

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 19/08/2019 03:00 Atualizado em: 19/08/2019 08:50

Vivemos tempos em que o debate, que deveria ser de ideias, desliza para a mera troca de adjetivos, clichês ou impropérios. Culpa das plataformas por onde se travam as disputas? Ou da ansiedade potencializada pelas telinhas, onde as pessoas estão mais susceptíveis às platitudes viralizadas por robôs e milícias digitais? Houve outros em que o duelo de ideias era mais substantivo. Em 1858, Abraham Lincoln e Frederick Douglas travaram debates antológicos sobre a escravidão. Que culminaram com a vitória de Douglas para o senado de Illinois. E, depois, com a vitória de Lincoln para a presidência da República. Pouco depois, no teatro Santa Isabel, no Recife, Castro Alves e Tobias Barreto polemizavam em versos, como lembrou Gilberto Marques na edição do Diario de Pernambuco deste fim de semana. O encanto das atrizes a arrastar para o teatro a rivalidade de ambos na Faculdade de Direito do Recife. Qual a mais encantadora? Eugênia Câmara, musa do poeta baiano do condor, ou Adelaide do Amaral, a do sergipano ressentido e recluso em Escada? Arrisco tomar partido pela primeira, dada a superioridade de talento e de caráter do seu admirador. Sem contar a de espírito boêmio. Este Diario de Pernambuco publicou célebres polêmicas de nossos intelectuais. Como a de Assis Chateubriand contra Sílvio Romero. O jovem desconhecido de Umbuzeiro, recém-chegado ao Recife, provocara o já nacionalmente famoso professor catedrático da Faculdade de Direito do Recife, fundador da Escola do Recife. Tudo que queria era que o manto sagrado se dignasse a refutá-lo. O que tardou, mas ocorreu. Para seu regozijo, por se fazer notar na metrópole. Neste mesmo Diario, nos anos 30, o socialista Joaquim Pimenta travara célebre polêmica com o conservador Barreto Campello, ambos catedráticos da Faculdade de Direito.

A ascensão do populismo de extrema direita, vitorioso em vários países europeus e nos EUA, por aqui chegou com força na eleição de 2018. Em grande parte pelo voto majoritário de brasileiros frustrados pelo envolvimento do PT com a corrupção da política convencional. Um voto com raiva, de protesto. Felizmente, há quem não se contente com a atual polarização que opõe as platitudes e ingenuidades da turma do ‘Lula Livre’ às das brigadas digitais bolsonaristas. Há quem, seriamente, comece a investigar as causas do buraco em que nos envolvemos. E a imaginar soluções. Como fez Cristovam Buarque em sua coluna de ontem neste Diario de Pernambuco, ao se perguntar onde foi que erramos, a partir de palestra que fez há pouco na Universidade Oxford. Em 2016/17, a revista Piauí publicou uma polêmica entre dois intelectuais de orientações diferentes. O marxista Ruy Fausto, professor emérito de filosofia da USP, contra o economista liberal Samuel Pessoa, professor da FGV. Delicioso e profundo debate que, por sobre as diferenças de orientação, parte de um ponto em comum. Ambos almejam um desenvolvimento com mais inclusão e justiça social. O debate entre os dois grandes intelectuais foi depois aprofundado em dois livros publicados pela Companhia das Letras. O primeiro, Caminhos da Esquerda, de Ruy Fausto, continua a polêmica sobre os erros cometidos pela esquerda nos 13 anos em que governou e arrisca elementos para sua reconstrução.  O segundo, O Valor das Ideias, organizado por Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, acaba de sair. Aprofunda o debate, com réplicas e tréplicas de Ruy e Samuel. E traz outras polêmicas, com outros pensadores. Voltarei em breve ao conteúdo da disputa de Samuel contra Ruy. Cada um tem uma interpretação sobre quais os maiores erros que levaram ao populismo da extrema direita. Mas ambos convergem na constatação de Renato Janine Ribeiro, feita no prefácio, de que, para forjar consensos mínimos para uma pauta superadora da crise, vamos ter de priorizar o debate propositivo. Mas não sem procurar entender as causas dos nossos erros. Que, o leitor facilmente vai concluir, foram de todos. Mais de uns do que de outros, claro. No mínimo, pelas diferenças de oportunidades e responsabilidades.

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