Diario de Pernambuco
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Opinião
Criminalidade cresce na Zona da Mata

Bartyra Soares
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 03/07/2019 03:00 Atualizado em: 03/07/2019 09:13

A Zona da Mata de Pernambuco já não pode ser vista como no poema de Ascenço Ferreira, cantado no Trem de Alagoas: “Ali dorme o Pai-da-Mata! / Ali é a casa das caiporas”. O desmatamento ininterrupto não mais oferece refúgio para estes seres tidos como verídicos no passado. Também já não é possível vislumbrar na sua totalidade, a se perder por trás de curvas após curvas, canaviais sacudidos pelos ventos, enxaguados pelas chuvas, incendiados pelo sol: “Cana roxa, / cana caiana, / cana fita, / cada qual a mais bonita, / todas boas de chupar...” como assegurava Ascenço.

Esta região, de acordo com recentes pesquisas, apresentou um número de crimes violentos letais intencionais (CVLI), que no mesmo período, superaram o número de violência do Agreste e do Sertão do estado. Este foi o balanço apresentado pelo governo, divulgado na mídia pernambucana.

A interiorização do tráfico de drogas, os assaltos, o desemprego provocado pela falência de indústrias ou a transferência de usinas para outros estados contribuíram para esses acontecimentos. Tomemos, como exemplo, a falência da Usina Catende, situada a 142 Km do Recife, o maior polo açucareiro do país há alguns anos, hoje resumida a escombros, enquanto ao seu lado, chora o rio Piranji a derramar o pranto da saudade. E Catende, antes tendo a sua vida ativa quase somente em torno da usina, naufraga na falta de perspectivas futuras. Agora só existe a lembrança do cheiro do café misturando-se ao cheiro do mel da usina nos fins de tarde. Apenas o sol ainda acende llumes ao deitar-se por trás da Serra da Prata.

Agreguemos a esses fatores, os conflitos, as agressões, as desavenças afetivas, as discórdias por tudo e por nada – atributos naturais da Natureza humana. Daí advir o agravamento do stress cotidiano, envolvendo uma complexidade de sentimentos e instintos. Isso ocorre em tal nível de profundidade, que somos condenados a jamais conhecermos ao outro, inclusive a nós próprios. A consequência é que somos seres imprevisíveis.

Na verdade, os conflitos interpessoais assemelham-se a pontos de incêndio. Até que se descubra de onde partiu o primeiro, os estragos já foram feitos. Embora se saiba que os sentimentos do tipo ciúme, ódio, despeito, desprezo, presunção do direito de controlar o ser amado nos seus atos, gostos e até pensamentos, têm sua preponderância nessa escala de destruição em qualquer parte do mundo.

Questões outras, como ambiente desfavorável, ingerência de terceiros em coisas que não são da sua alçada, escassez de recursos materiais, exigências provocadas pelas obrigações legais decorrentes da separação de casais, temperamentos diversos, perfis sociocomportamentais dúbios, contribuem para estes índices alarmantes da violência. Além da drogadição, do alcoolismo, das armas ao alcance da mão.

Todos esses fatores e outros tantos podem-nos levar a concluir que O Trem de Alagoas, se ainda existisse, talvez não mais levasse seus passageiros a um final feliz. Talvez, também, ninguém mais acreditasse na Compensação de Mario Quintana: “E quando o trem passa por esses ranchinhos à beira da estrada, a gente pensa que é ali que mora a felicidade...”

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