As intimidades de todo mundo

Plutarco Almeida
Jornalista e sacerdote jesuíta

Publicado em: 06/07/2019 03:00 Atualizado em: 08/07/2019 09:11

A publicação de conversas privadas mantidas pelo ex-juiz Sergio Moro e representantes do Ministério Público serviram para acirrar ainda mais os ânimos entre as duas grandes facções ideológicas que dividem o Brasil dos nossos dias. As vísceras de algumas das mais importantes esferas do Poder Judiciário foram jogadas no meio da rua e por longos dias seguirão impregnando nossos ares pátrios com o seu cheiro podre. O pior é que ninguém sabe quando é que o caminhão do lixo vai passar para recolhê-las, se é que vai passar um dia. Além do mais, esse mau cheiro sinaliza também a existência de outros segmentos importantes dos poderes públicos que ainda não foram abertos ou seja, corpos a cujas entranhas o cidadão comum jamais teve acesso. Além do Moro e dos promotores da LavaJato, muita gente importante precisaria urgentemente prestar contas ao povo brasileiro, sem quaisquer salvaguardas ou foros privilegiados. Simples assim.

Dito isto, e sem querer entrar numa discussão exaustiva a respeito das gravíssimas questões éticas que a divulgação dessas conversas suscitou, quero propor aqui uma reflexão que julgo bastante atual. Estamos falando do direito à privacidade. Trata-se de um direito mais do que necessário à própria sobrevivência da democracia. O que será de nós, cidadãos e cidadãs, quando já não pudermos usar as novas tecnologias para nos comunicarmos livremente uns com os outros? O que vamos fazer quando os assuntos pessoais, amorosos, religiosos, familiares ou profissionais de cada um estiverem facilmente ao alcance de qualquer pessoa?  Ora, quando ninguém mais tiver direito aos seus segredos, que tipo de relação humana se estabelecerá afinal? Todo mundo bisbilhotando todo mundo? Viveremos, então, entre paredes de vidro escancarando nossas intimidades? Ou nada mais será íntimo?

É claro que alguém entrincheirado e bem armado de “argumentos” dirá: o servidor público, especialmente os políticos e os magistrados, não têm direito à privacidade, uma vez que devem prestar contas dos seus atos ao país inteiro, exceto aqueles atos circunscritos à vida pessoal, é claro. Quem exerce cargo público tem o dever moral de exercê-lo com absoluta transparência. Então, por que não exigimos isso nas formas que a lei prevê? Por que não aperfeiçoamos esses mecanismos legais de modo a facilitar o controle cidadão sobre qualquer ato do poder público no Brasil? Por que não exercemos nosso poder fiscalizador? Ao invés disso, passaremos a viver doravante como espiões uns dos outros? As mídias digitais não oferecerão mais nenhum tipo de segurança? O que poderá acontecer? Podemos esperar que todo mundo comece a bisbilhotar a vida de todo mundo, mas aceitando, em contrapartida, a possibilidade de virem a ser bisbilhotados também. Sinceramente, não creio que esta seja, de fato, a melhor saída para a democracia.

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