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UFC 6 - Análise

Novo título da maior organização de MMA do mundo busca encontrar o equilíbrio entre simulador e arcade.

Antônio Gois

Publicado: 25/06/2026 às 20:13

Material promocional do 'UFC 6'/Divulgação/EA

Material promocional do 'UFC 6' (Divulgação/EA)

O combate é uma das mais antigas manifestações humanas e algo presente em nossa espécie desde que o mundo é mundo. Ao passar das eras, fomos nos organizando e civilizando, de modo que a selvageria pela sobrevivência foi sendo deixada de lado, dando lugar a um estilo de vida - seja ele em busca de fama, glória, dinheiro ou por algum instinto vindo das cavernas, mas aflorado em certos indivíduos até hoje. Dessa forma, é natural que essa manifestação fosse levada aos videogames, arte imersiva que põe o jogador na arena e no controle desses indivíduos. Assim, a luta nos games começou de forma figurativa e lúdica, especialmente nos arcades, gerando títulos clássicos como Street Fighter e Mortal Kombat, que figuram no topo de listas de mais vendidos ano após ano.

Ao mesmo tempo, durante as décadas de 90 e 2000, as maiores organizações de combate estavam sendo criadas e desenvolvidas, ganhando público e notoriedade. A midiática WWE (World Wrestling Entertainment) já tomava as televisões americanas com a dramaticidade de seus brucutus. No Japão, o Pride lotava o Tokyo Dome com confrontos que colocavam frente a frente lendas como o brasileiro Rickson Gracie e o ídolo japonês do pro-wrestling Nobuhiko Takada. Também buscando descobrir o que acontece quando grandes lutadores de estilos diferentes se encontram em um ringue - ou melhor, octógono - o Ultimate Fighting Championship (UFC) nasceu como um evento quase underground, mas se transformou em sinônimo do esporte que promovia, o MMA (Artes Marciais Mistas).

Sendo assim, era questão de tempo até os grandes lutadores da vida real fossem transportados para os videogames, unindo pedidos dos fãs para um jogo temático e a vontade dos donos e patrocinadores de expandir a marca, buscando atingir públicos em diferentes frentes.

Daí, vieram grandes destaques, como o ‘Ultimate Fighting Championship’, de 2000, um dos primeiros games completamente licenciados de uma organização privada, que foi lançado para Dreamcast, com conversões para PSOne e para o portátil Game Boy Color da Nintendo. Anos depois, em 2012, veio um dos games de luta mais celebrados, não só baseado na organização, mas de todo o gênero: ‘UFC Undisputed 3’, desenvolvido pela Yuke em parceria com a THQ. Após essa parceria terminar, a partir de 2014, a EA foi a responsável por trazer os games aos fãs do combate, sendo a desenvolvedora até hoje e que lança, em 19 de junho, o ‘UFC 6’, mais novo título baseado na maior organização de MMA do mundo.

UFC 6

Material promocional do 'UFC 6' - Divulgação/EA
Material promocional do 'UFC 6' (crédito: Divulgação/EA)

Desde o game homônimo à organização que foi responsável por estrear a parceria da Electronic Arts com o UFC, o equilíbrio entre simulador e arcade vem sendo questionado por fãs. Essa linha tênue é uma das principais características do ‘UFC 6’ e onde a maior parte dos fãs tende a divergir. Dentro do cage, local onde os jogadores vão passar a maior parte do jogo, está o centro de toda essa discussão.

Para este game, a EA buscou uma atualização do fator realismo trazido pelo criticado ‘UFC 5’, mas o misturando com sistemas e questões visuais que somam dentro das lutas. Para a questão do realismo, a movimentação e detalhes visuais chamam a atenção. O trabalho feito com as capturas de movimento é impressionante, oferecendo golpes em que a movimentação do lutador é fiel e minuciosa, com cada parte do corpo trabalhando em harmonia com todos os tipos de ações - para não deixar de mencionar, os efeitos ‘ragdoll’ são equilibrados e valorizam a brutalidade dos nocautes. Além disso, miudezas específicas do in-fight, como suor, lesões e cabelo, ajudam a valorizar a ambientação e o dinamismo que o jogo quer propor durante os combates. Em relação ao ‘outro lado’, vale destacar dois recursos: a nova interface, que remete mais aos clássicos arcades de luta, parecendo algo mais lúdico do que propriamente uma estatística esportiva, e o Modo Foco (flow state), que merece um parágrafo só dele.

O Flow State chamou a atenção desde sua revelação nos materiais promocionais do game. É uma mecânica que lembra um ‘especial’ e conta até com uma barrinha para encher durante a luta. Como o nome sugere, após ativar esse especial, o lutador entra em um estado de flow, onde efeitos visuais enchem a tela e o lutador entra em foco absoluto e uma habilidade especial, previamente escolhida de acordo com suas características, é ativada. Na teoria, seria algo que mudaria o jogo — especialmente em um modo online e competitivo —, mas, na prática, poucas mudanças reais são notadas, já que essa habilidade é discreta e pouco altera o dano, a defesa ou a movimentação, com os lutadores podendo ser nocauteados e atingidos tanto quanto em qualquer outro momento da luta. Com outros aspectos do game trazendo essa questão do ‘flow’ e também por isso ser algo celebrado no folclore do MMA, o Flow State é algo mais para chamar a atenção do público que não é um fã próximo do UFC, mas gosta de jogos de luta como os outros títulos já citados.

Material promocional do 'UFC 6' - Divulgação/EA
Material promocional do 'UFC 6' (crédito: Divulgação/EA)

Ainda dentro das lutas, outras questões merecem algum destaque. O senso de progressão geral é muito bom, a ponto de que quanto mais o jogador luta, mais vontade ele tem de lutar. O game incentiva a descoberta das habilidades de cada lutador e o desenvolvimento delas durante as lutas, assim como a combinação de golpes e movimentação, que trazem traços pessoais de cada personagem ali na tela. Por outro lado, os nocautes muitas vezes são repentinos e surpreendentes, mas não de uma forma realista, e sim desequilibrada, o que pode causar frustração em certos jogadores. O grappling também foi repaginado e, no geral, os comandos estão mais realistas e balanceados, especialmente nas movimentações de chão. O ponto sensível fica por parte das finalizações, que ficam muito a cargo da habilidade pré-definida dos lutadores, já que ataque e defesa são automáticos e o jogador não fica no controle, como era em jogos anteriores.

Dando um passo atrás, é importante trazer alguns pontos do pré-luta e para além dos controles. A ambientação dos combates é bem feita, especialmente na parte sonora. O frisson das arenas é envolvente, os efeitos sonoros dos combates são marcantes e pesados, e os comentários da ‘equipe de transmissão’ não comprometem, mas também não são nada especiais. Nesse contexto, um dos pontos de decepção são as arenas: todas elas são genéricas, com pouquíssimas mudanças entre elas, até grandes locais como o Madison Square Garden ou a T-Mobile Arena são descartáveis, assim como os poucos ‘torcedores’ presentes nelas, que ainda dão uma sensação até cômica de vazio quando o jogo apresenta uma visão panorâmica.

A modelagem, outra parte de suma importância em um título 100% licenciado, também merece um destaque. O visual dos lutadores é inconsistente, já que alguns são realistas ao extremo e outros deixam muito a desejar, tanto nas feições quanto na textura da apresentação (não na luta em si). Claro que os grandes nomes impressionam na aproximação com a realidade, mas alguns outros lutadores (que não ficam muito atrás em popularidade) receberam um tratamento abaixo, tendo suas feições alteradas e até mesmo deformadas. Sobre essa questão, um ponto específico me incomodou. Bruce Buffer, apresentador do UFC e um dos maiores rostos da organização, mesmo que não seja lutador, presta um papel central no ambiente das lutas e seu modelo está muito aquém do que poderia ser, especialmente considerando que ele aparece brevemente e suas animações são pré-renderizadas, o que tornaria o trabalho mais simples, algo que não se justifica para um título AAA licenciado.

Material promocional do 'UFC 6' - Divulgação/EA
Material promocional do 'UFC 6' (crédito: Divulgação/EA)

O ‘UFC 6’ também recebeu boas adições entre modos de jogo e customizações para as lutas. Modos pré-definidos dão um refresco e ajudam a diferenciar um pouco a gameplay. No ‘trocação’, como o nome sugere, só vale porrada, e grappling e wrestling são deixados de lado; no ‘nocaute’, modo exagerado e emocionante, os danos de todos os golpes são multiplicados e a brutalidade das lutas é colocada à prova. No mais interessante deles, o modo ‘simulação’, os medidores dos lutadores são retirados, a duração é em tempo real, os danos são realistas e a interface é composta somente pela barra de timer, simulando uma transmissão real, sendo um formato bem interessante de experienciar os combates. Ainda assim, senti falta de um modo focado em grappling, nos moldes do UFC BJJ, competição da própria organização focada em jiu-jitsu.

Outro ponto esperado pelos jogadores foi as atualizações do Modo Carreira, grande clássico em games de esportes. Começando com uma boa notícia: a customização de personagem tem uma gama bem maior de escolhas em comparação com o ‘UFC 5’, permitindo que o jogador crie diferentes personagens e atribua características mais específicas. A carreira, se feita da forma que é pedida pelos fãs, tende a ser bastante complexa, mas o tom empregado aqui traz dificuldade o suficiente para pôr o jogador em situações desafiadoras, como equilibrar o tempo dedicado aos treinos com o desenvolvimento de novas habilidades. Embora os recursos presentes aqui não fujam do superficial, é um modo que permite imersão e diversão, ao ponto que o jogador controla todas as dimensões da carreira e pode ver seu lutador chegar ao topo de diferentes formas.

‘O Legado’, outra adição interessante aqui, não é algo exatamente novo nos games da EA, e sim se parece com o antigo ‘A Jornada’, lembrado pelos fãs dos jogos FIFA. Sendo assim, apresenta uma história envolvente, com enredo bem construído e honesto, com personagens críveis no melhor estilo ‘Rocky’, incluindo detalhes que ajudam na imersão e em toda a integração com o ecossistema do UFC. O ‘Hall das Lendas’, pouco divulgado pela desenvolvedora, é algo bem interessante para os fãs mais assíduos do esporte. Nele, o jogador é mergulhado em um cenário que explora a história de três lutadores (Max Holloway, Alex Pereira e Zhang Weili) e em uma experiência imersiva que, para além de um olhar íntimo sobre os personagens, traz também seus episódios mais memoráveis dentro do octógono, oferecendo também um olhar mais técnico e até filosófico sobre o esporte em si.

Por fim, é impossível deixar de mencionar a estratégia live-service empregada aqui. Para além das microtransações já esperadas dos títulos da EA, com adições de cosméticos, o game tenta imergir os jogadores no que está acontecendo no UFC, como as semanas de luta, atualizações no ranking e desafios baseados em confrontos reais. Um bom exemplo disso foi a adição, mesmo que temporária, do cenário da Casa Branca, em referência ao evento Freedom 250, realizado no dia 14 de junho de 2026. Nesse ambiente, essas atualizações ‘ao vivo’ podem funcionar e aumentar a relação do jogador (como fã) com a organização, desde que seja para melhorar a experiência de quem está ali, trazendo a vivência do octógono para os games.

‘UFC 6’ é um título, no mínimo, interessante para o momento que a organização vive. Ele vem em um momento de atualização de plantel e até de era, em que divisões estão passando por transições e novas lendas estão surgindo. Por isso, com a importância que títulos da organização já tiveram, um que sabe conversar com diferentes públicos chega em boa hora tanto para os fãs de luta quanto para a indústria dos videogames, que também passa por diversas mudanças. Esse comportamento, até agora positivo nas atualizações ao vivo, somado às novidades gráficas e de mecânicas empregadas aqui, pode dar longevidade ao game, mesmo que ele não seja um divisor de águas como alguns de seus antecessores já foram.

Nota: 75
Plataforma: PS5
*Uma chave do jogo foi disponibilizada para a produção desta análise

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