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Opinião
A testemunha importante

Vladimir Souza Carvalho
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras

Publicado em: 21/05/2022 03:00 Atualizado em:

Não há testemunha mais chata da que é, ou se considera, importante, por ser casada com gente de família econômica e politicamente poderosa, e, ademais, o esposo ocupando alta posição em um dos poderes do Estado, além de frequentar a crônica social com assiduidade, num mundo em que  toda porta se abre ao menor contato, o chão sempre  atapetado para o seu deambular.

Tive uma dessas em feito no qual uma empresa pública federal se posicionava na condição de ré. Audiência de instrução, ouvida da autora, e, depois, de suas três testemunhas, figurando a senhora importante, - que doravante será assim denominada,-  como a última, no meio de três. A demandante foi indagada demoradamente, porque o fato era complexo, exigindo um profundo mergulho até o fundo do poço, a fim, inclusive, de se ter uma visão exata de tudo. Os dois primeiros depoimentos também marcados por muitas perguntas, se as testemunhas eram da autora deveriam saber dos seus negócios, o que implicava em tentar puxar a corda o máximo  possível. Até que, lá para as tantas, a última testemunha foi chamada. Sentou-se e chiou.

Reclamou de ter chegado antes das 13 horas – a audiência era marcada para as 13 horas – e só agora, perto das 17 horas, é que estava sendo convocada. Ouvi, com atenção, todo o discurso. Quando a testemunha importante parou de falar, falei eu, esclarecendo que ela estava ali por ter sido arrolada pela autora – e, na hora, a apontei -, que  o compromisso dela era com a demandante e não com a Justiça, que ela só estava sendo chamada naquela hora porque era a última testemunha da autora, e eu só ouvia na ordem de apresentação, que, se estivesse se sentindo incomodada, podia se retirar, no que eu lavraria um termo para deixar assentado seu protesto e saída, colhendo sua assinatura, a fim de documentar o fato.

A testemunha importante não respondeu, nem se retirou. Iniciei, então, com as perguntas de praxe, para, aos poucos, ir adentrando no mérito da pretensão. Não me vem mais à tona as respostas dadas, mas nada que pudesse interferir no destino da sentença. Deve ter sido arrolada para mostrar as amizades da autora com pessoas da alta sociedade, como a gente,  vulgarmente, realça. Acredito que saiu do fórum danada da vida, não sei se comigo, ou com a autora. Talvez tenha sido a mais ilustre testemunha que inquiri. Dar-lhe-ia, hoje, uma medalha nesse sentido.

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