Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Opinião
A enchente de 1975, Tapacurá e Margot Fonteyn

João Alberto Martins Sobral
Jornalista

Publicado em: 18/06/2021 03:00 Atualizado em: 18/06/2021 06:00

A enchente: Duas grandes enchentes atingiram o Recife. A primeira, em 1966. A segunda, ainda maior, em 1975.  Começou na tarde do dia 17 de julho, uma quinta-feira, num dia de sol. O Rio Capibaribe e os muitos canais da cidade foram subindo e transbordaram, alagando bairros inteiros, 80% da cidade. As ruas ficaram intransitáveis, dezenas de árvores caíram, muitos carros viraram, todos os serviços literalmente pararam, as lojas, muitas inundadas, fecharam. Mais da metade da cidade ficou sem energia elétrica, os hospitais funcionavam à luz de velas. O transporte nos bairros era improvisado em botes e barcos, um verdadeiro terror. Quando começou a enchente, o governador José Francisco Moura Cavalcanti deu entrevista no Palácio do Campo das Princesas, alertando para a enchente e pedindo para que as pessoas voltassem para suas casas. A água ficou a noite inteira e só começou a baixar no final da tarde do dia seguinte. Outras 25 cidades banhadas pelo Rio Capibaribe foram atingidas, algumas duramente como Camaragibe e São Lourenço da Mata. Morreram 107 pessoas e 350 mil ficaram desabrigados, muitos perdendo tudo nas suas casas destruídas. Eu morava na Boa Vista, uma das poucas regiões da cidade que não foi atingida e pude ir trabalhar na reportagem do Diario de Pernambuco. Recordo de ter feito a cobertura, usando um caminhão do Exército cedido aos jornalistas. Entre as imagens que me marcaram foi o estádio da Ilha do Retiro, transformado numa enorme piscina.

O boato: Outro episódio da cheia de 1975 foi o boato (hoje seria uma fake news) de que a barragem de Tapacurá teria estourado. O pânico generalizado aconteceu no dia 21 de julho, quatro dias após o início da enchente, quando os recifenses tentavam voltar à rotina e contabilizavam prejuízos. Eu testemunhei o drama, em torno das 10h, de um dia de sol. Lembro o cenário: pessoas abandonaram seus carros nas ruas, deixaram seus comércios abertos e corriam sem rumo, alguns tentaram subir nos prédios. Em geral, a crença é de que uma grande onda viria acabar com a cidade, como um tsunami. Eu tinha saído do Banco do Brasil, no Recife Antigo, onde trabalhava, para ir para a redação do Diario de Pernambuco, na Praça da Independência. O governador Moura Cavalcanti comunicou-se com a administração da barragem de Tapacurá e constatou que a situação era normal. Ele, então, dirigiu-se para o meio da confusão, em frente ao Diretório Central dos Estudantes, na Rua do Hospício. Os estudantes choravam, agitados. O governador disse que a notícia não era verdadeira, que se Tapacurá houvesse estourado ele não estaria ali naquele momento. Os estudantes se acalmaram e tomaram as ruas gritando para o povo que a notícia sobre o estouro de Tapacurá era falsa, que era boato, que estava tudo bem. O jornalista Homero Fonseca fez uma investigação acerca da origem do boato. A conclusão é que teria surgido na Avenida Caxangá, uma das mais atingidas pela cheia. Alguém soltou o comentário, que foi se espalhando no boca a boca e através das rádios, causando pânico na cidade. Ninguém pensou em conferir se era verdade porque havia um sentimento coletivo de desespero. Hoje, a história parece coisa de folclore. As pessoas que viveram aquele acontecimento, no entanto, quase sempre têm uma história tragicômica para contar. Eu tenho várias delas.

O show: Passada a tragédia da enchente, o Recife entrou num clima de baixo astral total. O então prefeito Antônio Farias e a primeira-dama Geralda Farias tiveram a ideia de fazer uma apresentação de Margot Fonteyn, a mais famosa bailarina de todos os tempos. Era a terceira vinda da bailarina inglesa ao Recife, antes tinha se apresentado na Rádio Clube e Santa Isabel, quando foi homenageada com jantar no Internacional e tinha visitado Dona Santa, a Rainha do Maracatu. A terceira, porém, foi a mais importante, quando se apresentou no Geraldão no dia 11 de agosto de 1975. O ginásio ficou lotado, com muitos nomes de prestígio, a começar do governador e sra. José Francisco de Moura Cavalcanti. Foi uma noite de muita emoção, que serviu para levantar a autoestima dos recifenses. Um detalhe: Margot Fonteyn não cobrou cachê.

Apesar dos protestos, começa a Olimpíada de Tóquio
Manhã na Clube: entrevista com o Presidente da Alepe, deputado Eriberto Medeiros (PP)
Em busca por vestígios de vida em Marte
Manhã na Clube: entrevista com Carlos Mariz (Associação Brasileira de Energia Nuclear)
Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco