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Opinião
A rua, nos tempos antigos

Vladimir Souza Carvalho
Magistrado

Publicado em: 26/09/2020 03:00 Atualizado em: 26/09/2020 05:50

Quem me contou foi a nora, encarregada de comunicar ao sogro que não podia mais vaguear na rua, à noite. Forma de escondê-lo da fatal moléstia descoberta. Ele, imediatamente, reagiu. Não podia ficar em casa. Sentia gastura. O remédio era a rua, para cuspir. Entenda-se, o fim era o encontro com as namoradas. Tinha muitas, desde que pagasse bem. A esposa, em casa, se recusava a qualquer ato de intimidade, a fim de evitar mais uma gravidez. Ele, então, descarregava as energias na rua.

A rua, à noite, era um compromisso sagrado. Nenhum homem ficava em casa. Papai era um exemplo. Terminado o café, se mandava para a frente do sobrado vizinho à casa de Manoel Teles, na Rua do Cisco. Um e outro iam chegando e o papo se fazia presente. Era uns aqui, outros ali, na praça, na igreja, em um bar, numa casa comercial  – a de Antonio Oliveira, uma porta aberta, e em torno do balcão, a conversa se expandia. A meninada, na praça, onde as meninas, algumas, apareciam. Ah, tinha também a igreja.

Cresci assim presenciando. Costume que não sei de que época vinha, talvez depois que a cidade passou a ter energia elétrica vinte e quatro horas por dia. Na década de setenta, o cancelo: os homens passaram a ficar em casa. A ida à rua, depois do jantar, para muitos, cessou. Apareceu a televisão, novelas em preto e branco, se arrastando, e o homem começou a sentir que a novela tinha um visgo para mantê-lo em casa, despontando a nova rotina de prendê-lo no lar depois do café, os senadinhos se extinguindo, os costumes se alterando.  

Hoje não sei o que predomina. A cidade, que foi minha, cresceu, deixou de ser menina. Agora, mulher madura. Adquiriu hábitos diferentes. Atrás destes, novas ruas surgiram onde, ontem, os sítios predominavam. Tudo mudou, as casas, do meu tempo, trocaram de roupa, a urbe inchando e explodindo, o asfalto cobrindo o paralelepípedo, a feição nova que me surpreende, sem apagar de minha mente a cara do meu tempo, que se mantém viva em minha lembrança. Só nela. A tudo isso se dá o nome de saudade.

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