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Opinião
O "boom" das escolas médicas no Brasil

Meraldo Zisman
Médico psicoterapeuta

Publicado em: 12/08/2020 03:00 Atualizado em: 12/08/2020 05:44

Em 1997, tínhamos 85 escolas médicas. Em vinte anos, mais do que triplicamos esse número, graças à explosão das escolas particulares que hoje correspondem a mais de 60% do total e cobram mensalidades de R mil a R mil por aluno. De 2000 a 2015, foram criadas 142 escolas médicas: 51 públicas e 91 particulares. Em dezembro de 2017 havia 303 escolas médicas, das quais 172 eram particulares, 78 federais, 35 estaduais, 16 municipais e 2 públicas, somando 29.753 vagas oferecidas anualmente. Atualmente não saberia informar o número delas em meu estado de Pernambuco.

Neste momento vivemos, quando o assunto é escolas de Medicina, exatamente como os EUA há 100 anos. Naquela época, o governo criou uma comissão chefiada por Abraham Flexner (1855-1959) para visitar e elaborar um relatório sobre as 155 faculdades de Medicina existentes no país e no Canadá. O resultado foi o fechamento de muitas dessas instituições e convenceu o governo e a sociedade da necessidade de financiar e monitorar as melhores instituições. Ao fim de seu relatório, Flexner escreveu: “As escolas médicas eram essencialmente iniciativas privadas cujo espírito e objetivo eram gerar dinheiro... Um homem que pagasse suas mensalidades, assim, praticamente tinha seu título assegurado, assistisse ele ou não às aulas.

Medicina não se aprende, como se dizia no meu tempo, com giz e cuspe. Aprende-se nos ambulatórios, enfermarias, salas cirúrgicas, com preceptores e professores qualificados. Estamos em um momento no Brasil em que boa parte das faculdades de Medicina não possuem as mínimas condições e não são exigidas a se adequar. Será que haverá professores qualificados para atender a demanda didática e operacional desses estudantes? A Medicina não se aprende exclusivamente nos livros, aulas teóricas, mas sim na prática médico-hospitalar. A necessidade da Residência Médica é indiscutível e sua realização didática.

Aprendi nas minhas andanças pelo mundo que as escolas médicas começam por bons hospitais onde podem ser treinados os acadêmicos de medicina e depois se monta universidades. Aqui está sendo ao contrário. Primeiro funda-se uma faculdade de Medicina e depois procura-se um hospital para complementar o treinamento do estudante. Nos países em desenvolvimento qualquer reitor sabe que a maior parte das verbas universitárias vai para a Medicina.

Necessitamos urgentemente de um relatório Flexner para autorizar que só as faculdades sérias tenham condições mínimas de funcionamento, acompanhadas por hospitais, ambulatórios, medicina da família, saúde coletiva, higiene mental, etc. No momento em que vivemos devemos tentar reduzir a influência política sobre as Escolas Médicas assim como seu ‘boom’ desenfreado. Caçoar da importância da Medicina é fácil quando se vai bem, com saúde.

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