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Opinião
Uma noite sem pensar

Luzilá Gonçalves Ferreira
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 30/06/2020 03:00 Atualizado em: 30/06/2020 07:04

Quase todas as noites, em uma boite do Leme, no Rio de Janeiro, ela comovia as pessoas, muitas delas vindas ali só para ouvi-la cantar A noite do meu bem, na luz difusa da sala sem abajur lilás. Então a capital federal era uma cidade tranquila e linda. A gente ia ao Municipal ouvir e ver La Traviata, voltava de bonde, tarde da noite, na maior segurança, descia na parada do Jockey Club, logo depois do Jardim Botânico. Subia a silenciosa e escura Rua dos Oitis, que terminava na Rua das Acacias, onde vivia Affonso Romano de Sant’Anna, e Vinicius de Moraes juntava o pessoal para cantar a Bossa Nova.  Não estou inventando não. Meninos eu vi, digo como o velho índio do poema de Gonçalves Dias.

Logo ali, no Palácio do Catete havia um presidente risonho, gente como a gente, que sabia o que queria (deslocou a capital para o meio do nada, contra tudo e contra todos, e deu muito certo). Aprendia a tocar violão com Dilermando para cantar o Peixe Vivo, como poderei viver sem a tua companhia?  Recebia ao almoço estrelas de Hollywood como Kim Novak. Foi a Paris acompanhando as filhas debutantes, nada menos do que no Castelo de Versalhes. E esteve na Casa do Brasil, na Cidade Universitária de Paris, onde explicou em francês macarrônico mas  simpático, a  estudantes brasileiros e estrangeiros, a importância da transposição da capital, e trabalheira que foi construir a Novacap. Falava com orgulho de como o país estava com uma indústria florescente, a Fábrica Nacional de Motores fabricava  até os possantes FNM, que o povo traduzia por Fabricados por Nós Mesmos. A gente tinha Pelé, recebia prêmio no Festival de Cannes e os franceses aprendiam a entoar Olé muié rendeira com a voz de Vanja Orico no filme de Lima Barreto. Um detalhe: as senhoras finas da Igreja de Copacabana iam todas as tardes de domingo, contar histórias da Biblia e ensinar catecismo na favela da Rocinha. Juro.

O leitor perguntará de onde veio toda essa história, nesta coluna de hoje. Ah, eu falava de Dolores Duran que personificava o Rio daquele tempo, sem ódios nem malquerenças. Cantava a ternura, a alegria de mãos se encontrando, chamava o amado para  sair com ela passeando pela chuva. Mas também, vez em quando se deixava vencer pela melancolia. E pedia: “Dá-me, Senhor, uma noite sem pensar”. Mesmo que as razões da insônia não sejam a mesma que as de Dolores, muita gente, hoje em dia está rezando e repetindo suas palavras. Pois a peste que caiu sobre nós, como nos tempos da Idade Média, e o descaso com que se encara e divulga o flagelo, parece só depender de ajuda do Alto, pelo menos para aqueles a quem resta apenas,  como à poetisa Elizabeth Browning, a fé de sua infância” ingênua e forte”.

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