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Opinião
Calcanhares sujos

José Carlos L. Poroca
Executivo do segmento
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Publicado em: 23/05/2020 03:00 Atualizado em: 23/05/2020 09:23

Sempre que possível, tento sair da linha de quem já passou dos 50 (meu caso), evocar a nostalgia e ficar repetindo “tempo bom foi ...” ou “depois deles não surgiu mais ninguém...” – coisas do tipo. As facilidades e as dificuldades sempre existiram e a humanidade foi se adaptando às mudanças que foram ocorrendo. Vejam, por exemplo, a tuberculose: já não mata e deu lugar a outros males piores que surgem a cada meio século. Uso esse mal (a “peste branca”) para lembrar de A Montanha Mágica de Thomas Mann, que traz o dia a dia num sanatório para doentes pulmonares. A obra tem 100 anos e continua esplendorosa.

No Brasil, portadores de tuberculose ou da hanseníase eram condenados sem processo e confinados, só pelo fato de terem essas patologias. Um dos que passaram por essas casas foi o impagável Nelson Rodrigues. Mais na frente, afirmou que a causa foi a fome que passou na infância. Vejam, a fome daquela época (início do Séc. 20) é a mesma de hoje, com todas as evoluções que o mundo passou.

Deixo de lado a fome e volto a Nelson Rodrigues. Releio suas crônicas e digo: era grande, mesmo com a repetição de algumas expressões; mesmo com os cutucões que fazia de vez em quando: dom Helder Camara e Alceu Amoroso Lima eram alfinetados a cada fase da lua. Era incisivo, na defesa ou no ataque. Criou termos e expressões marcantes – “grã-fina com narina de cadáver”, “toda unanimidade é burra”, “quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”, e centenas de outras.

Uma delas – “estagiária de calcanhar sujo” – me fez lembrar de episódio envolvendo Dona Iraci, minha mãe, que não aprovava namorinho com mocinha porque ela “filha de desquitados”.  Queria o melhor para seus filhos, seguindo pensamento dominante de boa parte de famílias da época. Outro ponto que recomendava: quando for namorar uma moça, olhe os calcanhares; através deles, você saberá se ela dará uma boa esposa e boa mãe.

Vejo, hoje, como Dona Iraci era sábia. Temos aí, espalhados, calcanhares sujos a torto e a direito, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Entendam que “calcanhar sujo” é apenas um simbolismo e não se refere apenas à parte posterior do pé. O sujeito pode ter calcanhar sujo na cabeça, no estômago ou no coração. O lamentável: a sujeira congênita dos calcanhares não sai com lixa, creolina, água sanitária, nem com milagre; é personalíssima, como um sinal.

Se querem um exemplo, vejam um típico calcanhar sujo: quem usa a calamidade pública ou uma pandemia para tirar proveito de quem tem menos. Esses tricheurs se esquecem que, na hora agá, aquela de quem ninguém escapa, não passarão nem pelo purgatório; irão direto para o inferno. Longa estada para eles.

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