Diario de Pernambuco
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Opinião
Literatura e crime

Roque de Brito Alves
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 04/03/2020 03:00 Atualizado em: 04/03/2020 08:48

O grande drama humano e social existente no fenômeno criminal não podia ser ignorado pela arte que procura refletir a realidade da vida, existindo, assim, uma certa afinidade entre a obra de arte em geral (literatura, pintura, cinema, teatro, etc.) e a criminalidade. A arte inspira-se na vida, reflete a realidade, busca expressar também o homem e a sociedade e assim sendo não podia ignorar a realidade humana e social do fenômeno criminal, sobretudo a personalidade do criminoso. Afinidade ou evidência incontestável, embora não se chegue ao exagero de Thomas de Quincey, que, no século 19, afirmou que o homicídio era uma das Belas – Artes ...

Em intuição genial sobre o problema do crime e do delinquente, encontramos a literatura dos antigos trágicos gregos, no século 5 a. Cristo, através dos grandes nomes de Ésquilo – com o ciclo de Orestíada -, Sófocles – com Édipo –, Eurípedes – com Orestes, Electra –, onde a alma humana criminosa é descrita em páginas imortais. Nos séculos 16 e 17, com o grande dramaturgo Shakespeare – Ricardo III, Hamlet, Othelo, Macbeth, etc. – , com os seus personagens criminosos, com análises que séculos depois a ciência veio a confirmar, e igualmente nos grandes romancistas, sobretudo do século 19 como Zola, Dostoievsky, Balzac, Eugène Sue, etc.

Toda a tragédia grega é de assassinatos, incestos, adultérios, vinganças sangrentas, dominada pela presença ou símbolo da fatalidade, do destino – ananké – que presidia a vida do indivíduo, que seria um produto da herança, a mesma herança como causa maior da criminalidade defendida por vários cientistas nas últimas décadas do século 19. Édipo parricida; a incestuosa, fratricida e assassina dos próprios filhos que foi Medeia, criminosa – louca; Phedra, outra incestuosa que é imortalizada nas tragédias de Eurípedes, e no século 17, na França, com Racine, como criminosa – passional. É Shakespeare com Macbeth criminoso por ambição política, Hamlet, como delinquente mentalmente perturbado, Othelo como criminoso passional, Ricardo III, criminoso por complexo inferioridade, Lady Macbeth como símbolo da criminosa perversa, sem sensibilidade moral alguma.

Ainda no século 19, é Dostoievski diagnosticando a epilepsia, o complexo de culpa, a esquizofrenia antes da própria psiquiatria moderna, na sua obra-prima Crime e Castigo, e o problema penitenciário em Memórias da Casa dos Mortos. São os vícios, os pecados, os crimes na descrição do “Inferno” da Divina Comédia de Dante Alighieri no século 14; é o criminoso romântico Jean Valjean em Os Miseráveis de Victor Hugo; são os crimes e as perversões sexuais nas obras do Marquês de Sade, no século 18, etc.

Na literatura nacional moderna, citamos os romances de José Américo de Almeida, de José Lins do Rego, de Jorge Amado, etc., sobre os delinquentes em nosso mundo rural, os cangaceiros, os pistoleiros, os criminosos fanáticos, etc., num grande documentário não somente de valor literário, porém útil sociologicamente ou cientificamente para o estudo da criminalidade nacional.

Assim sendo, a intuição artística sobre o delito e o delinquente sempre precedeu a sua análise científica e a sua formulação jurídica (expostas a partir do século 19), em nossa compreensão.

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