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Opinião
Editorial Transplante: faltam órgãos

Publicado em: 03/12/2019 03:00 Atualizado em: 03/12/2019 08:56

Embora seja a única certeza na vida, a morte ainda é vista com temor por parte significativa das pessoas. Não por acaso os cemitérios antigos tinham muros altos e se construíam bem longe das residências. Dizem que a estratégia tinha uma razão — o que não é visto não é lembrado.

A língua também colabora para manter a imagem distante. Na certeza de que as palavras são mágicas e, portanto, capazes de atrair o indesejado, criam-se eufemismos. Passagem, partida, viagem, volta pra casa, ida para a companhia do Pai são substitutas da “indesejada das gentes”, como lembrou Manuel Bandeira.
 
Mas o tempo passa, a ciência avança e o que era deixa de ser. Cemitérios hoje, são jardins. Jazigos se transformaram em delicada placa plantada no chão. Árvores, sombra e amplo gramado convidam para passeios e piqueniques. Não faltam os que abrigam museus, bares e restaurantes. Muitos são atração turística.
 
Era de esperar que a mudança externa implicasse mudança interna. Em outras palavras: que se encarasse com mais naturalidade a doação de órgãos. A morte prematura de Gugu Liberato trouxe à tona o assunto, que, embora longe das manchetes, reveste-se de enorme dramaticidade. Nada menos de 50 pessoas foram beneficiadas com o gesto do apresentador concretizado pela família.
 
No Brasil, 45 mil entre adultos e crianças aguardam na fila da doação. O número oscila dia a dia. Alguns partem enquanto esperam. Outros chegam na esperança do socorro oportuno porque sabem que têm prazo de validade. Apesar do quadro desesperador, há entraves que impedem a concretização do procedimento.
 
Eles se referem a fatores que compõem o sistema. O primeiro: o doador. Não basta a pessoa declarar estar de acordo com a doação. A família precisa endossar o desejo. Muitas, por desatenção, inconformidade ou razões íntimas às vezes de cunho religioso não o fazem. O outro: o sistema de transplantes. Embora o Brasil disponha do maior sistema do mundo, faltam insumos para torná-lo eficiente. De um lado, há carência de órgãos. De outro, faltam recursos para fazê-lo funcionar.
 
Segundo o Ministério da Saúde, 96% dos transplantes são realizados pela Sistema Único de Saúde — SUS, que conta com uma eficiente rede de conexão com os 26 estados e o Distrito Federal. Inspirado no modelo espanhol, o brasileiro apresenta significativa diferença na taxa de doação de órgãos por milhão de pessoas — 48,2 contra 17.
 
É importante aumentar o número de doações. Governo, imprensa, escola, igrejas, clubes sociais e esportivos precisam abraçar a causa. Há que conscientizar a sociedade para a importância da doação. A escolha tem peso. Ao dizer sim ou não, a pessoa não raro faz as vezes de Deus — decide sobre a vida ou a morte de um ser humano.

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