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Opinião
Tsunami

Romero Wanderley Guimarães
Presidente Executivo da Sucesu-PE, Diretor de TI e Transformação Digital da Agência de Tecnologia da Informação do Governo de Pernambuco, Mestre em Ciência da Computação pela UFPE

Publicado em: 05/11/2019 03:00 Atualizado em: 05/11/2019 08:27

Observando a economia local em Pernambuco, tenho me preocupado muito com a total falta de sensibilização sobre a onda de transformação digital, que já está ocorrendo e que irá se intensificar muito ainda, principalmente nos próximos cinco anos. É uma onda de progresso, de evolução tecnológica e de maior produtividade. Porém, as empresas, as pessoas, os governos e o terceiro setor, precisam se inteirar do que vem por aí, pois se não houver uma preparação, a imensa maioria das pessoas e das empresas locais estará fora do mercado, na nova economia digital.
 
As empresas locais irão disputar mercado com empresas mundiais. Isto já está ocorrendo: uma grande parcela da população já compra pela internet, muitas vezes, mercadorias produzidas em países distantes do Brasil, como China, Coreia e Índia. Produtos que são anunciados em plataformas digitais como Google, Facebook,  Instagram, etc, competindo com as vendas das empresas locais.
 
Além do mais, com a intensificação do uso das tecnologias de Inteligência Artificial, Computação em Nuvem, Mineração de Dados, Robótica, Internet das Coisas, 5G, Computação Quântica e outras mais, o mundo será muito diferente daqui a 5 ou, no máximo, 10 anos. O emprego, como conhecemos, com carteira assinada e uma relação fixa entre empresa e empregado, tende a reduzir-se a algumas profissões, que exijam uma especialização e conhecimento técnico de alto nível.
 
As máquinas irão fazer os trabalhos que despendem muito tempo e que são repetitivos, inclusive os que exijam ler e entender textos, escrever, ouvir e entender as pessoas e, até, falar.
 
E não adianta o governo querer proibir as empresas de usarem essas tecnologias, porque a questão é mundial. Uma medida dessas iria quebrar todas elas. A nossa indústria canavieira, que já foi a mais desenvolvida do mundo, quebrou, principalmente, porque não acompanhou a evolução tecnológica da mecanização do plantio e da colheita, talvez até, porque os dirigentes públicos e privados não queriam substituir a mão de obra por máquinas. Agora, com o falimento da indústria, não se tem nem emprego, nem renda, nem indústria, nem alimento para uma massa de trabalhadores que não têm qualificação para as atividades econômicas atuais.
 
Enfim, se faz necessário que as pessoas adquiram novos conhecimentos e se capacitem, não somente agora, mas pelo resto de suas vidas. Elas vão precisar aprender a lidar com estas tecnologias e com as que virão. Não se trata de ir para a área de informática. É necessário aprender a utilizá-las. A ser usuário das tecnologias e não especialistas que fazem a tecnologia.
 
É necessário que as empresas conheçam estas tecnologias e possam identificar onde, em seus negócios, essas tecnologias possam ajudar a aumentar a produtividade e a rentabilidade, para manterem-se competitivas.
 
É necessário que os governos pensem em formas de fomentar atividades como turismo, artesanato, lazer e cultura, que são aquelas em que se consegue inserir as pessoas que não estejam preparadas para as tecnologias citadas acima.
 
Também terá que se pensar em novas formas de tributação e arrecadação sobre as atividades na internet, e reverter essa arrecadação para garantir renda mínima para as pessoas menos favorecidas.
 
Há que se fazer um grande esforço de capacitação e de educação das pessoas, especialmente, dos jovens, para que eles sejam formados para o novo mundo da economia digital.
 
Me sinto como se estivesse em um navio, distante da costa, e passasse por mim uma enorme onda de um tsunami, e eu estivesse tentando avisar às pessoas e ao governo do continente para que eles se preparassem e tomassem medidas para se proteger, mas ninguém estivesse acreditando em mim e estivessem ignorando a onda que está chegando.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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