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Opinião
Editorial Salvar a Floresta

Publicado em: 28/10/2019 03:00 Atualizado em: 28/10/2019 08:54

O desmatamento desenfreado na região amazônica e no cerrado brasileiro estão tornando áridas extensas porções de terra do território nacional, o que é classificado nos meios acadêmicos como uma espécie de desertificação. Se não for colocada em prática, urgentemente, vigorosa política de proteção a esses biomas, o Brasil pode enfrentar sérias dificuldades, com impacto direto, por exemplo, na produção do agronegócio, responsável por significativa parte do Produto Interno Bruto (PIB), que vem batendo recordes seguidos. Ao contrário do Nordeste, onde a natureza se encarregou de moldar a aridez da região, em outros pontos do país a intervenção do homem sobre os processos naturais é que provoca, cada vez mais, rigorosa seca.

O desmatamento das regiões Norte e Centro-Oeste deve ser combatido, diuturnamente, apesar do pouco caso das autoridades da área de meio ambiente para com questão de tamanha gravidade. É do conhecimento geral, e não só da academia, que a presença das florestas, sobretudo na Amazônia, é de fundamental importância para que a umidade proveniente da região, fenômeno conhecido como rios voadores, alcance o Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil, além de outras áreas da América do Sul.

O grande problema, de acordo com especialistas, é que o desmatamento sem nenhum controle, planejamento e ordenamento territorial está comprometendo o fluxo da umidade e, consequentemente, o regime de chuvas, o que vem acontecendo com frequência cada vez maior. Com esse comprometimento, extensas áreas ficam mais propensas à estiagem, interferindo em todo o sistema produtivo já existente, como o agronegócio, a geração de energia hidrelétrica, o transporte hidroviário e o saneamento básico, todas atividades dependendes da disponibilidade constante da água.

Ao contrário dos discursos oficiais relacionados à devastação da Amazônia, aí incluídos os incêndios criminosos que aumentam a cada dia, encontra-se em real perigo a floresta responsável pelo clima nas principais áreas produtivas do agronegócio do país. Para especialistas, há, sim, o risco de extinção do bioma amazônico, com impactos imprevisíveis. Enormes porções de terra ao Sul se tornariam parecidas com o sertão nordestino. E, sem água, a agropecuária não sobreviveria como existe atualmente.

Não se pode esquecer os transtornos vividos pela população, em grande parte do Brasil, notadamente no Sudeste, em 2015 e 2016, com a maior crise hídrica que se tem notícia. Muito menos do racionamento de energia por cauda da escassez de chuvas em 2001. É certo que se o desmatamento descontrolado continuar, as crises hídricas se tornarão mais frequentes e severas. Diante desse quadro, a sociedade tem de se mobilizar e cobrar do governo o combate ao eminente desastre ambiental e suas nefastas consquências sociais.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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