Descarrilamentos e morte de trabalhador escancaram problemas do Metrô do Recife
Em uma semana, o metrô do Recife contabilizou dois descarrilamento de composições e a morte de um trabalhador. De acordo com a CBTU, o segundo trem usado deve chegar até o dia 26 deste mês, enquanto o primeiro segue para a fase de testes operacionais
Publicado: 15/06/2026 às 21:23
Primeiro trem vindo de Belo Horizonte chega ao Recife para reforçar operação da Linha Sul do metrô (Foto: CBTU)
Em meio à expectativa de uma possível melhoria no funcionamento do Metrô do Recife com a chegada e o início da operação dos trens usados, os passageiros continuam enfrentando os mesmos problemas que já se tornaram rotina para quem depende desse meio de transporte. Apenas na semana passada, o sistema registrou dois descarrilamentos e a morte de um trabalhador da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU).
O episódio mais recente ocorreu no sábado (13), entre as estações Alto do Céu e Curado, quando um trem que operava no Ramal Camaragibe descarrilou.
Além disso, segundo a CBTU, após o descarrilamento foi registrado um problema elétrico que também afetou o Ramal Jaboatão. A operação dos dois trechos foi normalizada ainda no sábado.
Quatro dias antes, o Metrô do Recife já havia registrado outro descarrilamento, desta vez entre as estações Recife e Joana Bezerra. O incidente ocorreu por volta das 11h12 da terça-feira (9) e provocou o fechamento de todas as estações da Linha Sul, afetando o deslocamento de cerca de 60 mil passageiros que circulam diariamente entre Recife e Jaboatão dos Guararapes.
O funcionamento da Linha Sul foi retomado parcialmente ainda na noite da terça-feira, com os usuários precisando trocar de composição na Estação Joana Bezerra. A operação integral só foi restabelecida na quarta-feira (10).
Além desses episódios recentes, outros incidentes impactaram a rotina dos passageiros ao longo de 2026, incluindo um curto-circuito e um descarrilamento registrados em março, além de uma falha na rede aérea em fevereiro.
Diante da sequência de ocorrências, o Sindicato dos Metroviários de Pernambuco (Sindmetro-PE) afirma que os problemas enfrentados pelo sistema não são recentes. Segundo o vice-presidente da entidade, Tiago Mendes, os riscos vinham sendo alertados há meses.
“No último período, o sindicato fez denúncias sérias que, infelizmente, vêm se materializando. A gente colocou de forma muito clara que a maneira como as coisas vinham se processando e se articulando levaria o sistema a um colapso iminente. Infelizmente, essa situação está chegando”, afirmou.
Segundo ele, os alertas chegaram a ser apresentados em uma audiência pública realizada em Brasília. “Dissemos que, do jeito que as coisas estavam se encaminhando, caminharíamos para um acidente fatal no sistema. E isso acabou acontecendo”, acrescentou.
Morte de trabalhador
Além dos problemas relacionados à operação dos trens, o metrô do Recife registrou, na quinta-feira (11), a morte de um trabalhador. Tiago Barbosa dos Santos, de 40 anos, que sofreu uma descarga elétrica enquanto realizava serviços de manutenção da rede aérea nas proximidades da Estação Tejipió, na Linha Centro, Zona Oeste da capital pernambucana.
Segundo o Sindmetro-PE, que relacionou a morte ao processo de sucateamento e abandono da malha metroferroviária da Região Metropolitana do Recife, esta foi a primeira vez que um trabalhador do sistema morreu em um acidente de trabalho dessa natureza.
Para o presidente do sindicato, Luiz Soares, a situação atual é resultado de um processo gradual de deterioração da estrutura metroferroviária. “O sistema foi se sucateando aos poucos. Esse sucateamento não aconteceu da noite para o dia, porque em 2014 houve os investimentos da Copa do Mundo. O que aconteceu é que, até 2020, o sistema ainda estava colhendo os frutos desses investimentos. Mas, a partir de 2020, quando começaram os cortes de verba, o sistema passou a se deteriorar gradativamente”, disse.
Em nota divulgada no dia do acidente, a CBTU informou que ainda era cedo para determinar as causas da morte e que prestou assistência imediata aos familiares da vítima.
Troca de dormentes
Além dos incidentes, as obras de manutenção também vêm impactando a operação do metrô. A substituição dos dormentes no Ramal Camaragibe, por exemplo, aumentou o intervalo entre as viagens para 30 minutos, podendo chegar a 45 minutos após as 20h30, segundo a CBTU.
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De acordo com a companhia, a intervenção, que deverá durar cerca de seis meses, permitirá o aumento da velocidade operacional dos trens nesse trecho. A expectativa é que a medida reduza os intervalos entre as composições e amplie a capacidade de transporte de passageiros.
Apesar disso, Tiago Mendes avalia que as ações em andamento ainda são insuficientes diante da situação do sistema. “A intervenção que a CBTU está fazendo tem o objetivo de tentar resolver alguns pontos onde há problemas. Isso exige investimentos que já estavam previstos e busca minimizar, ainda que de forma limitada, essa questão do intervalo entre os trens, para tornar a operação um pouco menos caótica. Mas a gente entende que seria necessária uma ação mais robusta, capaz de garantir a integridade do sistema”, afirmou.
Chegada dos trens usados
Em relação aos trens usados, a CBTU informou que a segunda composição da frota Cobrasma do MetroBH partiu de Belo Horizonte com destino ao Recife na quinta-feira (11). A previsão é que o trem chegue à capital pernambucana entre os dias 22 e 26 de junho.
Já a primeira composição, que desembarcou no Recife em 20 de maio, foi aprovada pela equipe de manutenção e segue para a fase de testes operacionais. Essa etapa é considerada fundamental para o início da operação comercial, prevista pela CBTU para ocorrer ainda nesta semana.
Segundo a companhia, os outros quatro trens previstos no acordo devem chegar nos próximos meses. Uma composição está programada para julho, outra para agosto e duas para setembro.
A CBTU também informou que negocia a ampliação do acordo com o metrô de Belo Horizonte para receber mais cinco composições, totalizando 11 trens transferidos para o Recife.
A incorporação dos veículos faz parte do conjunto de medidas adotadas pela companhia antes do processo de concessão do metrô do Recife à iniciativa privada e tem como objetivo ampliar a capacidade operacional da Linha Sul.