Morte de servidor do Metrô do Recife foi causada por sucateamento do sistema, diz sindicato
Diretor de Comunicação do Sindmetro-PE afirmou, em coletiva de impressa nesta quinta (11), que falha em sistema de segurança durante manutenção da rede aérea causou a morte do servidor do Metrô do Recife
Publicado: 11/06/2026 às 13:28
Diretor de comunicação do Sindicato dos Metroviários, Leandro Felix (Foto: Cadu Silva/DP)
A morte do trabalhador Tiago Barbosa dos Santos, de 40 anos, durante uma manutenção na rede aérea do Metrô do Recife, na madrugada desta quinta-feira (11), foi consequência direta do sucateamento do sistema metroviário da capital pernambucana, segundo o Sindicato dos Metroviários de Pernambuco (Sindmetro-PE).
A avaliação é do diretor de Comunicação da entidade, Leandro Félix, que atribui o acidente fatal à precarização da infraestrutura do metrô e à falta de investimentos na rede aérea, responsável por alimentar eletricamente os trens.
“Se a nossa rede aérea estivesse funcionando com a melhor qualidade e todos os intertravamentos de segurança adequados, essa morte não teria acontecido”, afirmou.
Tiago era funcionário da Coordenadoria de Eletrificação (Coeli) e realizava um serviço de manutenção preventiva na rede aérea entre as estações de Tejipió e Coqueiral quando sofreu a descarga elétrica.
De acordo com o sindicato, ele era um profissional experiente, atuava há vários anos na CBTU e era reconhecido pelos colegas pela capacidade técnica.
“Era um profissional extremamente capacitado. Eu o conhecia pessoalmente. Era um amigo, um companheiro que perdeu a vida trabalhando”, declarou Leandro Félix.
Segundo o dirigente, ele foi informado sobre o acidente ainda durante a madrugada, por volta das 2h.
Falha em sistema de segurança
Segundo as informações levantadas pelo sindicato, o trabalhador utilizava os equipamentos de proteção exigidos para a atividade.
A suspeita é de que tenha ocorrido uma falha em algum mecanismo de segurança que deveria impedir a energização do trecho durante a execução do serviço.
“Aparentemente houve uma falha em algum intertravamento de segurança. Não tem como um profissional dar um comando de fechamento de corrente em um trecho que foi particionado para manutenção. A gente corta a energia daquele trecho para trabalhar com total segurança e com os EPIs adequados”, explicou.
Apesar de evitar apontar responsabilidades antes da conclusão das investigações, Leandro afirmou que algo falhou no processo.
“Eu não vou ser irresponsável e cravar qual foi a falha, mas ocorreu uma falha. O nosso sistema sempre foi tido como seguro.”
Questionado sobre a intensidade da descarga elétrica, o dirigente afirmou que ainda não há informações conclusivas.
“Não sabemos exatamente qual corrente passou. Como houve essa falha, pode ter passado uma corrente maior ou menor. Existe a possibilidade de ter ocorrido algum problema na rede de 3 mil volts, mas isso precisa ser apurado pela investigação.”
Segundo o sindicato, Tiago não realizava a atividade sozinho. Os protocolos de segurança exigem a presença de mais de um trabalhador durante serviços na rede aérea.
“Sempre há mais de um funcionário junto porque é uma questão de segurança. Quatro olhos enxergam muito melhor do que apenas dois.”
Manutenção durante a madrugada
A equipe da Coeli é responsável pela manutenção da rede aérea que alimenta os trens. O objetivo é evitar rompimentos, falhas elétricas e interrupções no fornecimento de energia.
“A equipe da rede aérea faz toda a manutenção para que não haja particionamento, quebra da rede ou falha na corrente que alimenta os trens.”
Segundo Leandro, a atividade realizada por Tiago fazia parte da rotina de manutenção preventiva executada durante a madrugada.
“O metrô funciona comercialmente das 5h às 23h, mas nós temos equipes trabalhando 24 horas por dia para garantir o funcionamento do sistema.”
O dirigente ressaltou que Tiago já realizava esse tipo de atividade há muitos anos. “Não era um profissional inexperiente. Muito pelo contrário. Era extremamente capacitado.”
Rede aérea sob críticas
Ao comentar o estado da infraestrutura do metrô, Leandro Félix voltou a relacionar a morte do trabalhador ao processo de sucateamento do sistema.
Segundo ele, o sindicato denuncia há anos problemas na rede aérea e cobra investimentos para recuperação da estrutura.
“O que aconteceu hoje foi uma falha numa rede aérea que ceifou a vida de um trabalhador.”
O dirigente afirmou que o sistema já registrou diversos episódios de rompimento da rede e interrupções na circulação dos trens.
“Quantas vezes o sistema ficou parado devido à falha da rede aérea? Quantas vezes a rede partiu? Nós denunciamos isso ao longo dos anos.”
Leandro também afirmou que a estrutura sofre desgaste permanente por operar continuamente.
“A rede aérea passa energia 24 horas por dia. Como uma televisão ou um carro, existe desgaste natural ao longo dos anos. É preciso manutenção, substituição de trechos e investimentos constantes.”
Na avaliação do sindicato, parte da infraestrutura continua funcionando graças ao trabalho dos próprios metroviários.
“Boa parte da nossa rede aérea, infelizmente, talvez nem tivesse mais condições de estar funcionando. Ela continua funcionando graças a profissionais como Tiago e tantos outros que trabalham em condições extremamente precarizadas.”
Novos trens e infraestrutura antiga
O sindicato também voltou a questionar a introdução de novos trens em uma infraestrutura que considera defasada.
“Estamos trazendo trens para uma rede aérea que já apresenta problemas há anos”, explicou.
Segundo Leandro, os frequentes rompimentos da rede demonstram a necessidade de investimentos estruturais antes da ampliação da frota.
Críticas aos governos
Leandro Félix atribuiu a situação atual à falta de investimentos dos governos responsáveis pelo sistema ao longo dos anos.
“O sistema foi sucateado pelo Governo Federal, pelo Ministério das Cidades”
Ele também direcionou críticas à governadora Raquel Lyra. “A governadora disse que ia assumir e resolver o problema do metrô e isso não aconteceu.”
Conforme o sindicalista, a morte de Tiago deve servir como alerta para os riscos enfrentados pelos trabalhadores. “Foi ceifada uma vida. E podem ser ceifadas outras vidas aqui dentro do sistema.”
Primeira morte na história do metrô
De acordo com o sindicato, este é o primeiro acidente fatal envolvendo um trabalhador em serviço registrado na história do Metrô do Recife.
“Nessa magnitude, nunca aconteceu. Nunca tivemos um trabalhador perdendo a vida durante a execução das suas atividades dentro do sistema.”
O Sindmetro informou que irá acompanhar as investigações e discutir internamente quais medidas serão adotadas após o acidente.
A possibilidade de paralisações ou protestos ainda não está descartada.
“Tudo será discutido com muita responsabilidade. Qualquer encaminhamento será debatido pela direção do sindicato.”
Até o momento da entrevista, segundo Leandro Félix, a CBTU ainda não havia procurado oficialmente a entidade para tratar do caso.
“Até agora não tivemos nenhum contato oficial da empresa.”
O dirigente afirmou que o sindicato continuará cobrando esclarecimentos e denunciando situações que coloquem trabalhadores em risco.
“Nosso sindicato não tem patrão, não tem político e não tem político de estimação. Vamos continuar denunciando toda e qualquer situação que coloque em risco a vida dos trabalhadores.”
CBTU
No começo da tarde desta quinta (11), a CBTU Recife convocou a imprensa para uma entrevista coletiva, às 15h, a fim de fornecer mais informações sobre o acidente que matou o servidor e responder às denúncias do Sindmetro-PE.