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''PE em Moçambique''

Coco Raízes de Arcoverde lança clipes gravados na África e compartilha experiências afrodiaspóricas

O ''PE em Moçambique'', que levou os artistas Dayane e Kell Calixto, do grupo Samba de Coco Raízes de Arcoverde, à cidade de Maputo para um intercâmbio com os membros da Associação Cultural Hodi Maputo Afro Swing, chega à sua culminância com um evento especial nesta quarta-feira (3)

Publicado em: 03/04/2024 13:30 | Atualizado em: 03/04/2024 13:59

Kell e Dayane Calixto em Moçambique, com a Banda Hodi (Rui Mendonça)
Kell e Dayane Calixto em Moçambique, com a Banda Hodi (Rui Mendonça)
O "PE em Moçambique", que levou os artistas Dayane e Kell Calixto, do grupo Samba de Coco Raízes de Arcoverde, à cidade de Maputo para um intercâmbio com os membros da Associação Cultural Hodi Maputo Afro Swing, chega à sua culminância com um evento especial, nesta quarta-feira (3), a partir das 13h30, na EREM Carlos Rios, em Arcoverde. Na ocasião, os artistas, junto ao mestre Assis Calixto e às presenças virtuais de Elias e Augusto Manhiça, da Hodi, compartilharão suas vivências no projeto, com mediação de pesquisadores da diáspora africana e das culturas afro-brasileiras. Também serão apresentadas três músicas inéditas, com performances gravadas no país africano, e um vídeo da oficina de trupé oferecida pelos pernambucanos a crianças moçambicanas.

Idealizado com o objetivo de estreitar os laços entre culturas que compartilham, além da língua, muitos traços, das sonoridades às expressões das artes do corpo, o "PE em Moçambique" deixou ecos nos artistas de Arcoverde e do país africano. Além da semana que passaram em Moçambique, no final de agosto de 2023, para divulgar o trupé, Dayane e Kell Calixto, do Coco Raízes de Arcoverde, trouxeram consigo memórias e experiências que continuam a reverberar.

"A experiência em Moçambique foi muito única, especial, porque, antes de tudo, sempre ouvi a música africana, sempre gostei, admirei as danças, as vestes, a cultura. Sempre estava ali vendo vídeos, cantando, aprendendo. Quando eu fiquei sabendo que iria ter Moçambique, meu coração saltou de alegria. Era um sonho e foi realizado. O que mais me impactou foi quando nos reunimos com o grupo Hodi porque parecia que a gente já se conhecia há anos. Quando nos reunimos para fazer os ensaios, para fazer a junção das duas culturas, a pernambucana, do Sertão, de Arcoverde, com a moçambicana, fizemos com muita facilidade. Que essa conexão permaneça e que nós possamos voltar outras  vezes ou que eles consigam vir aqui", conta Kell.

Em Moçambique, os pernambucanos apresentaram o trupé, a pisada acelerada com som produzido pelas tamancas de madeira, um elemento característico da cultura afrodiaspórica de Arcoverde. Lá, também participaram, entre outras ações, do XI Festival Nacional de Cultura, realizado em Maputo, experiência que os impressionou.

"O que mais me impactou foi o desfile, com a gente representando a cultura, não só de Arcoverde e de Pernambuco, mas do Brasil. Quando entramos no estádio com a placa do Brasil, todo mundo começou a gritar o nome do nosso país. Foi muito emocionante", lembra Dayanne.

Outro momento inesquecível para os integrantes foi a oficina de trupé que eles ministraram para crianças na Escola Primária Matchik Tchik, no bairro de Polana Caniço, em Maputo. A oficina apresentou uma leitura da pisada do tamanco desde os primeiros passos até o repicado frenético da batida no tablado, além de apresentar os instrumentos musicais utilizados no coco. Para a surpresa dos artistas arcoverdenses, os pequenos aprenderam rápido os passos, como se já conhecessem a cadência e os movimentos do coco.

Do intercâmbio, Dayane e Kell trouxeram tecidos típicos da região, como o capulana, que já está sendo usado pelo Coco Raízes de Arcoverde para os figurinos, confeccionados por Auricélia Siqueira, figurinista, aderecista e artesã responsável pelo Ateliê Pedaço de Pano, de Arcoverde. O grupo estreou as indumentárias em fevereiro, no Festival Pré-Amp, realizado no Cais da Alfândega, no Recife, e, em fevereiro, na Praça do Carmo, em Olinda, durante o show feito no Carnaval da cidade.

Além disso, os artistas também incorporaram novidades na sua música. "Carro ou Trem", canção do grupo pernambucano, ganhou um novo título, com alusão à forma como os automóveis são referenciados em Moçambique, e refrão traduzido para rhonga, uma das línguas originárias de Maputo. Já os integrantes da Hodi adaptaram a canção por completo para o seu idioma, incorporando-a ao seu repertório. 

Entre as obras audiovisuais que serão exibidas no auditório do EREM Carlos Rios, estão "Kaya + Chapa ou Trem", "Were Were" e "Nicinha", todas parcerias com a Hodi Maputo Afro Swing. Todos os vídeos foram gravados como performances ao vivo, em Polana Caniço, bairro da periferia de Maputo onde a Hodi exerce suas atividades, e contaram com a presença de moradores da região. O material audiovisual será disponibilizado no canal do Coco Raízes de Arcoverde no YouTube e as músicas também estarão disponíveis nas plataformas de streaming, a partir de 25 de abril.


DIÁLOGOS DIASPÓRICOS

Para contextualizar a importância do projeto "PE em Moçambique", Dayane, Kell e o mestre Assis Calixto, que é Patrimônio Vivo de Pernambuco, conversarão com os alunos da EREM Carlos Rios, em Arcoverde, durante o Laboratório que irá acontecer no dia 3 de abril. De Moçambique, Elias e Augusto Manhiça também irão compartilhar suas impressões do processo vivido junto aos brasileiros. 

A conversa será mediada pelo professor Jaelson, do EREM Carlos Reis, e contará ainda com as presenças dos pesquisadores Auxiliadora Martins, doutora em Educação pela UFPE, com pesquisas e atuação voltadas para temas como Africanidades e Afrodescendências; José Nilton, docente no Departamento de Educação da UFRPE, onde ministra a disciplina de Educação das Relações Étnico-raciais; e Daniel Soares, professor no Curso Superior de Tecnologia em Produção Fonográfica na FATEC Tatuí (SP).

"Considero que esse é um projeto inédito, extremamente criativo e importante, que além de discutir a música, a dança, a cultura de diferentes países, como Moçambique e Brasil, também presta um serviço imenso para a educação das relações étnico-raciais, considerando que por muitos e muitos anos, décadas, séculos, os saberes africanos e de afrodescendentes passaram ao largo das escolas públicas e privadas do Brasil", aponta Auxiliadora Martins. "Esse projeto é uma grande contribuição para que as pessoas possam entrar em contato com a história e a memória da nossa ancestralidade, que foi ocultada, invisibilizada e silenciada."

O projeto "PE em Moçambique" conta com produção de Cabra Fulô e Buruçu, com incentivo do Funcultura, Fundarpe, Secretaria de Cultura e Governo de Pernambuco.

SERVIÇO
"Laboratório PE em Moçambique"
Data e horário: 03 de abril, a partir das 13h30
Local: EREM Carlos Rios (Rua Maria José de Santos Moreno, s/n, Arcoverde)
Disponibilização das músicas e vídeos nas plataformas: a partir de 25 de abril
Mais informações: @cocoraizesdearcoverde (Instagram)

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